Muitas mães de gêmeos, desde antes de sequer começar a licença-maternidade, já se preocupam em como será a volta ao trabalho.

Outras mulheres mesmo antes do nascimento dos bebês passam por situações pouco confortáveis por conta da gestação gemelar.

A Me Two hoje quer falar de trabalho: sabemos que é comum e normal ficarmos angustiadas por não sabermos como dar vão dar conta da nova rotina e inseguranças em relação à sua carreira e seu retorno ao trabalho. Nessas horas, muitas mães acabam abandonando ou pensando seriamente em abrir mão de suas carreiras.

Nossa pauta de hoje começou com o pedido de uma seguidora pelo Facebook, Maria Fernanda Dias Lima: “Se para a mãe de um bebê é difícil retornar ao mercado de trabalho, imagine para a mãe de gêmeos! A dificuldade é em dobro!”

Maria, jornalista, teve que pedir demissão por conta de tantas demandas com as bebês, que nasceram prematuras. Assim como ela, também outras mães nos relataram situações difíceis. A professora Daniele Gonçalves foi demitida da universidade assim que terminou a estabilidade após a licença. E a estudante Fabiani Figueiredo sentiu na pele o preconceito em entrevistas de emprego tentando recolocação.

Mas há esperança: vamos aqui contar também a história da bancária Carina Becker, que teve uma experiência positiva em seu ambiente de trabalho quando retornou após os meses em licença. Ela representa tudo o que a iniciativa Maternidade nas Empresas defende: mais igualdade de direitos e humanidade no tratamento corporativo com as mães. Após os depoimentos, confira nosso guia especial com dicas super práticas para quem está passando pelas mesmas situações no trabalho.

Fabiani com Lukas e Lorenzo

“Na entrevista de emprego, falaram que meus bebês precisavam de mim”

Fabiani Figueiredo, 34 anos, de General Câmara/RS, mãe dos gêmeos Lukas e Lorenzo, 9 meses, e Willian, de 7 anos

“Saí da empresa em que trabalhava em março de 2018. Descobri a gravidez um mês depois. Os bebês nasceram e quando me senti pronta para voltar ao mercado, fui fazer entrevistas. Na primeira, me disseram que meu currículo era muito bom, trabalho em áreas administrativas. Me perguntaram se sou casada e se tinha filhos. Contei que tenho um de 7 anos e gêmeos de 4 meses. Aí que foi a primeira reação: a entrevistadora pegou um lápis e anotou em cima do papel: MÃE DE GÊMEOS DE 4 MESES. E me disse: é para o RH avaliar melhor teu caso. E me questionou como eu faria se conseguisse a vaga. Respondi que deixaria os bebês na creche e alguém busca para eu poder trabalhar. A pessoa comentou: Mas teus filhos precisam de ti, são pequenos. E deu aquela enrolada. Me senti na hora humilhada. Por que eu seria menos eficiente do que alguém sem filhos? Por que meus filhos são complicados? Para mim são bênçãos! Infelizmente ter currículo não basta. O que eles querem é uma pessoa solteira, sem filhos e principalmente sem gêmeos. Hoje vendo pão na rua e com orgulho, pois assim consigo pagar umas contas. Enquanto não arrumo nada com carteira assinada, vou levando assim.”

“Fui demitida dos dois trabalhos após o fim da estabilidade”

Daniele Gonçalves de Souza, 42 anos, mãe dos gêmeos Henrique e Lorenzo

“Trabalhava 60 horas por semana como professora em duas universidades quando fiquei grávida. Havia uma onda de demissões. Com quase 19 semanas de gravidez, o médico ordenou repouso absoluto. Não podia nem sentar, só ficar deitada, até comer deitada e banho só de 2 em 2 dias. Meu marido foi levar os atestados. Passei e-mail e WhatsApp explicando tudo para meus chefes, deixando tudo organizado para as disciplinas que ministrava, até as provas dos alunos e todos os conteúdos. Nunca me ligaram para saber de nada, ninguém perguntou como eu estava. Os gêmeos nasceram prematuros de 27 semanas. Fiquei 72 dias na UTI. Na volta ao trabalho, assim que terminou a estabilidade, fui demitida de ambas as universidades. Eu gastava uns 4 mil só em leite porque os meninos tiveram alergia à proteína do leite. A questão financeira começou a pesar. Minha sorte foi ter começado a me matar estudando para um concurso, mesmo com dois bebês em casa, e passei. Se eu não tivesse me ligado que isso iria acontecer, teria ficado desempregada e com gêmeos com problemas de saúde. Ainda não ganho o que ganhava antes de engravidar, mas agora sim estou com todos os meus direitos e ninguém vai me olhar de cara feia. Aqui no Brasil é como se fosse um crime engravidar quando você trabalha! Como se fosse um prêmio a pessoa tirar licença para ter filhos.”

Maria Fernanda, jornalista, com o marido, Marcelo, e as gêmeas

“A licença-maternidade é consumida pelo tempo de UTI”

Maria Fernanda Salla Dias Lima, 41 anos, jornalista em São Paulo, Clara e Luna, 1 ano e 4 meses

“Minhas bebês nasceram prematuras e a demanda com médicos e outros cuidados era tão grande que pedi demissão do meu emprego. Voltei a trabalhar após a licença-maternidade e depois de 2 meses elas filhas ficaram doentes e precisaram de mim. Hoje elas estão saudáveis, com 1 ano e 4 meses, mas ainda estou tentando voltar ao mercado. Só que o preconceito é grande. As pessoas se assustam quando sabem que você tem gêmeos. Acho que para falar de trabalho e maternidade, é importante levantar a bandeira de que muitos gêmeos nascem prematuros. As minhas nasceram de 33 semanas e precisaram de 1 mês de UTI neonatal. A licença é consumida pelo tempo de UTI, pois para as empresas a licença passa a contar a partir do nascimento. Então, acabei tendo só 3 meses em casa com os bebês antes de voltar. É muito pouco!”

Carine, bancária, teve uma ótima experiência no trabalho quando engravidou

“Tive uma experiência muito positiva ao voltar ao trabalho na empresa”

Carina Mendonça Becker, 33 anos, bancária, mãe da Beatriz e do Guilherme, 11 meses, e do Gabriel, 4 anos

“Desde que engravidei minha experiência na Caixa Econômica foi super positiva. Logo que descobri a gestação contei para meu chefe. Estava receosa, pois ele não tem filhos, mas tive todo o apoio desde o primeiro dia. Me senti sempre com total liberdade para priorizar o que de fato era mais importante naquele momento. Felizmente tive uma gestação muito saudável e trabalhei até o dia que ganhei bebês, nasceram com 37 semanas. Fiquei 6 meses e meio fora. O normativo da empresa prevê, no retorno, redução de jornada de 1 hora, por filho, até ele completar 12 meses. Ou seja, como eu trabalho 6h, minha jornada se reduziu a 4h. Mais uma vez estava um pouco tensa em como seria isso, já fiquei tanto tempo fora, será que seria tranquilo para a empresa e a equipe? Já no meu primeiro dia de retorno meu chefe fez questão de me chamar e dizer que toda a equipe estava ciente de que eu gozaria dos meus direitos, inclusive quanto à flexibilidade dos horários. Me senti muito à vontade neste período de 1 ano. São medidas da empresa que retornam a ela. Foram 4 horas por dia que possivelmente tive um rendimento até superior porque eu ia trabalhar feliz. Afetou positivamente nas minhas atividades profissionais. Me sinto feliz e orgulhosa em trabalhar em uma empresa que valoriza e fomenta ações como essas. Sei que infelizmente nem todas as mulheres têm a possibilidade de exercerem seus direitos, seja por preconceito velado ou explícito, assédio moral ou qualquer outro tipo de discriminação. Enquanto no Brasil não mudar a lei da licença maternidade, possibilitando a divisão para os pais, inclusive, o preconceito vai existir.”

Maternidade nas Empresas: Susana e Luciana dão dicas para mães que voltam ao trabalho

Dicas práticas para mães que voltam ao mercado de trabalho

De executivas a empreendedoras, as amigas Luciana Cattony e Susana Zaman lideram a iniciativa Maternidade nas Empresas. Elas alinharam a experiência que tiveram nas empresas que trabalharam com a expertise em lidar com as mães em seus negócios. A consequência disso foi a iniciativa que tem a missão de ajudar a construir um ambiente organizacional acolhedor e que valorize as mães no mercado de trabalho. Luciana e Susana prepararam um guia para as mães de gêmeos e múltiplos da Me Two. Guarde para quando precisar reformular seu currículo e envie para aquela amiga que precisa ler estas dicas!!

PARA MÃES QUE RETORNAM AO TRABALHO PÓS-LICENÇA

O momento do retorno ao trabalho é cheio de emoções e algumas são bem conflitantes. Você pode se sentir triste por deixar seus bebês. Ou você pode se sentir aliviada em deixar seus filho sendo cuidado por outra pessoa e ainda culpada por esse alívio. Para esta transição seja mais leve, separamos algumas dicas:

– Construa a sua rede de apoio. Mães de gêmeos precisam ainda mais contar com avós, amigos, prestadores de serviços, dindas, dindos, professoras para dar conta da rotina intensa. O que importa é ter com quem contar. Com um esquema montado e as pessoas certas, você ficará mais tranquila para retomar as suas atividades.

– Comece a fazer a transição gradual para o seu novo ritmo pelo menos uma semana antes da sua volta. Assim, você terá tempo suficiente para ver o que funciona e o que não funciona.

– Diminua as expectativas. Na volta ao trabalho, não espere fazer tudo com perfeição nos primeiros momentos, pois é impossível. Lembre-se que você está se adaptando, é muita transformação que está vivendo na rotina. O jeito certo é aquele que VOCÊ CONSEGUE. Não se compare, você é única.

– Aprenda com outras experiências. É muito bom compartilhar. Por isso, mantenha contato com outras mães de gêmeos que passam pelos mesmos momentos que você. Conviver com as pessoas nos faz entender que os desafios fazem parte da vida e nos ensina novas formas de encarar o mundo. Você pode conseguir dicas valiosas para conciliar a carreira com os filhos.

– Encontre apoio entre as mães que trabalham. Verifique se o seu escritório já tem algo assim e, caso contrário, considere iniciar um grupo.

– Se você tiver condições, leve os seus bebês para o trabalho antes de retornar. Isso permite que você torne sua nova realidade visível para seus colegas de trabalho.

– Se possível, combine com o seu gestor para voltar ao trabalho pós licença-maternidade numa quinta-feira. Você estará muito mais perto de um final de semana para pensar sobre o que funcionou e o que ajustar antes de sua primeira semana completa.

– Se for possível, use um pouco da suas férias/licença-maternidade para ter alguns dias de folga nas primeiras semanas de volta ao trabalho. Por exemplo: você pode tentar negociar com o seu gestor para cortar sua licença por uma semana e depois usar esses cinco dias para ficar em casa com seus pequenos nas cinco primeiras sextas-feiras de seu retorno.

VALORIZE AS HABILIDADES QUE A MATERNIDADE ENSINA

Sendo mãe de gêmeos, você está trazendo todo um conjunto de novas habilidades, uma capacidade de desenvolver várias tarefas e o incentivo para trabalhar de uma forma mais eficiente. Este retorno é uma oportunidade de carreira onde você pode voltar fazendo a diferença. Revistas conceituadas como a Forbes e artigos acadêmicos mostram que o índice de produtividade de uma mulher que tem filhos é maior do que o de seus colegas sem filhos. Está provado que durante o período em que se dedica exclusivamente às crianças, a mulher também desenvolve algumas habilidade pessoais, conhecidas como soft skills que podem ser úteis, inclusive na vida profissional: esforço e sacrifício, gestão de recursos, comunicação, liderança, capacidade de improvisar, de assumir riscos… são apenas algumas dessas habilidades que as mães se tornam “experts”! Além de um ser humano melhor, mães também podem se tornar profissionais ainda mais qualificadas.

COMO BUSCAR RECOLOCAÇÃO NO MERCADO DE TRABALHO

Na hora de escrever o seu currículo ou atualizar o seu Linkedin, você pode escrever algo como: “Soft skills que aperfeiçoei como mãe: multitarefa, planejamento, empatia e paciência.”, na parte sobre “Resumo das Qualificações”.
Se optar por escrever uma carta de apresentação junto ao seu currículo, você pode incluir um parágrafo sobre essa fase da sua vida, algo como: “De 2016 a 2018 eu me dediquei aos meus filhos. Esse período foi muito importante para minha família e ainda me permitiu refletir sobre a minha carreira. Agora, me sinto preparada para focar na minha carreira e aplicar as softs skills que exercitei nesse período. Durante essa fase, eu me tornei ainda mais multitarefa, exercitei planejamento e aumentei meu grau de empatia e paciência.”

@@ Veja aqui um exemplo na prática!!!

O QUE FALAR NA ENTREVISTA DE EMPREGO

É bem provável que o recrutador pergunte durante a entrevista sobre o período que você ficou fora do mercado. Esteja preparada para responder de forma confiante “Eu decidi me afastar do mercado de trabalho para me dedicar aos meus filhos. Eles eram muito pequenos e precisavam de mim por perto. Durante esse período, eu melhorei algumas soft skills como organização, planejamento e trabalho em equipe. Esse período foi muito importante para minha família e eu pude refletir sobre a minha carreira. Agora eu tenho tudo organizado e estou preparada para voltar ao mercado de trabalho.”

Se na sua profissão é comum montar um portfólio de apresentação, você pode incluir seus filhos como um dos seus projetos. Se você é uma designer ou arquiteta, por exemplo, pode incluir uma foto de suas crianças como o projeto mais recente e inserir um texto contando sobre o que aprendeu com essa experiência.

@@ Rotina com bebês gêmeos: mães famosas contam seu dia a dia
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