O que é uma mãe solo? Talvez você conheça a expressão “mãe solteira”, antigamente usada para determinar quem cria um filho sem a presença do pai da criança. Mas ser mãe é para sempre e independe do estado civil.

Hoje a Me Two aborda, portanto, o tema da maternidade solo. E especialmente da mãe de gêmeos, através de três histórias.

Seja por escolha ou contingências da vida, muitas mulheres lidam com o desafio de criarem seus filhos sozinhas ou com presença esporádica do pai das crianças.

Os dados mais recentes do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas) apontam que 5,5 milhões de crianças não têm o nome do pai no registro de nascimento. E mais de 80% das crianças brasileiras têm como primeiro responsável uma mulher.

Aqui, compartilhamos três depoimentos de mulheres mães de gêmeos que contam suas histórias de vida para você se identificar e para promover o acolhimento que toda mãe precisa nesta situação. Por estarem sempre atarefadas e envolvidas com os filhos, até mesmo as entrevistas para esta matéria foram feitas em etapas, de pouco em pouco, dividindo um contato por telefone com o cuidado com as crianças. Obrigada do fundo do nosso coração, Mariah, Luciane e Renata e tantas outras mulheres por abrirem o coração para a gente!

Mariah Barcellos, criadora de conteúdo para YouTube, do canal “Louca é a Mãe”
Mãe dos gêmeos Martina e Vicente, 2 anos

“Todas as responsabilidades têm que ser divididas.”

“Eu namorava com o pai dos meus filhos há dois anos quando descobri que estava grávida. Se uma gravidez não planejada já é um susto, imagina uma gestação gemelar então… Foi correria, confusão, todo mundo ficou meio perdido. Mas meu ex sempre foi bem participativo, me deu muito apoio e foi bem presente. Tentamos morar juntos até os 8 meses dos bebês, mas depois percebemos que não tinha como. Voltei para a casa da minha mãe. Ainda amamentava em livre demanda e estava passando por um puerpério bem intenso, exaustivo. Vivia cansada, mas não me arrependo nem um pouco. Me orgulho de todas as decisões que tomei até aqui.
Não tinha intenção de dividir igualmente a guarda, mas percebi que seria egoísta se não permitisse que ele tivesse contato frequente com os filhos. Agora temos guarda alternada, 50% para cada um. Isso talvez mude um pouco por conta da rotina, quando os bebês entrarem na escolinha. Não foi nada simples no início, mas hoje é tranquilo para os dois.
Depois de um tempo na minha mãe, chegou um momento em que eu senti que precisava assumir as decisões sozinha. Queria ter a minha casa com os meus filhos. Sair de lá foi uma fase intensa para mim. Foi a fase em que eu estava começando a me descobrir como mulher de novo, retomando o controle da minha vida. No início eu estava vivendo só para os meus filhos. E não que isso seja errado! A gente fica um tempo atrás de lembrar quem somos além de mães. É meu papel protagonista na vida, mas não é a única coisa que sou.
Meu ex é um pai presente, conversamos bastante sobre as crianças. Sei que não é a realidade de muitas mães e sou muita grata pela sorte de ele ser participativo, mas mesmo assim, por ser mulher na nossa sociedade, sei que sempre pesa mais para mim, tanto na questão de decisões porque me sinto constantemente julgada por qualquer coisa que eu faça. Ele, por ser homem e pai que cumpre com as obrigações, é outro peso. Dizem que “mãe é mãe e sempre se vira”, falam de mãe guerreira, mas temos que parar de romantizar isso. Mulher não é este ser invencível. No dia a dia é bem complicado. A gente se cobra muito por tudo isso. Um pai que faça o mínimo por seus filhos ganhará o troféu de Pai do Ano. Já uma mãe que se vira com os gêmeos… Bom, é “coisa de mãe mesmo”. 
Hoje estou em um novo relacionamento, o pai das crianças  também. E até nisso vejo as diferenças de tratamento dos outros. Quando ele começou a namorar, diziam: “Homem é isso aí mesmo”. E de mim, diziam: “Ai meu Deus, como ela faz para apresentar paras as crianças o namorado?” As pessoas têm naturalizado isso dentro delas. Já ouvi muitas vezes a frase: “Que bom que ele te ajuda”. Mas não é uma ajuda, gente, fizemos isso juntos! Todas as responsabilidades têm que ser divididas. Por eu ser uma pessoa de vida mais pública, já ouvi até comentários de que na casa do pai estão “mais arrumadinhos” do que na minha. É preciso mudarmos estes comportamentos. 

Luciane Carvalho, 39 anos, administradora de empresas
Mãe dos quadrigêmeos Antonella, Valentina, Sofia e Nicolas, 1 ano e 10 meses

“O maior desafio de ser mãe solo é tentar dar conta de tudo”

“Depois de ter recebido a notícia mais importante de toda minha vida, comecei a dividir a minha trajetória na mídia e na internet sobre ser mãe solo de quadrigêmeos. Tinha 37 anos e estava solteira quando resolvi fazer uma produção independente. O tempo estava passando e me via sem grandes perspectivas de um relacionamento saudável para construir minha família.
Meu pai tinha sido diagnosticado com um tipo de câncer no sangue chamado mielodisplasia (pré leucemia aguda). Os médicos informaram a gravidade e que seria necessário passar por um transplante de medula óssea, porém com muitos riscos. Foi diante desta incerteza de tê-lo comigo como vô de um filho que eu teria que me fez partir logo para inseminação artificial. E minha vontade de ser mãe era tão grande que Deus me enviou não só um, mas 4 bebês! 
Foi um susto gigante receber a notícia de que teria quadrigêmeos. Na matéria do jornal Zero Hora que contou minha história, a repórter narrou que eu cheguei a ficar 2 dias isolada, sem falar depois disso, até cair a ficha. Fazia e faço orações para que Deus nos dê saúde e força para superar todos os desafios. Meu pai conheceu os netos e faleceu logo depois.
Hoje em dia, passados quase dois anos do nascimento deles em agosto de 2017, nossa rotina segue puxada. Nicolas, Antonella, Sofia e Valentina fazem turno integral na escolinha. Durante a semana, a babá chega às 6h30min e me ajuda a arrumá-los, alimentar… Levamos as 4 crianças em dois carros para a escolinha, no meu e no dela. De manhã, resolvo coisas na rua ou fico fazendo coisas da casa e da vida familiar, como preparar as mídias sociais e organizar palestra (nesta terça de noite, Lu é uma das convidadas do Minas de Propósito, em Porto Alegre, evento aberto ao público). 
Depois do almoço, vou ao trabalho, das 14h às 20h. Quando chego em casa, o quarteto já está dormindo. É a babá que dá banho, janta e tudo mais no fim da tarde. No final de semana, é o tempo inteiro comigo e com a minha mãe, é quando a loucura pega (risos) e preciso chamar a rede de apoio, mas hoje está bem mais restrito quem se envolve do que era no começo. Mas sempre chamamos uma madrinha, uma amiga que tem disponibilidade… Agora já conseguimos ir numa pracinha com eles, pois pra sair de casa com todos sempre preciso de dois carros, é uma das maiores dificuldades que tenho hoje em dia.
De vida pessoal estou bem devagar, tenho a meta de sair mais, mas por ser mãe solo eu preciso me organizar financeiramente também. Mas uma vez por mês dá pra dar uma “fugida” pra dar uma desopilada.
Sou uma pessoa extremamente realizada, antes eu morava sozinha e tinha o sonho de ter uma família, eu queria esse agito na minha vida. É claro que exige bastante e cansa, mas recebo muito amor deles. Toda aquela falta que eu sentia antes eu me sinto preenchida. 
O maior desafio de ser mãe solo é tentar dar conta de tudo. A gente se cobra muito! A responsabilidade é toda minha. Mas se eu pudesse falar com a Lu de 2017 que recebeu a notícia dos quatro bebês, eu diria que ela não se preocupasse antecipadamente porque as coisas não acontecem por acaso. Tudo se resolve ao seu tempo! Calma que vai dar certo!”

Renata Melloni, contadora, 37 anos
Mãe das gêmeas Isis e Miah, 1 ano e 9 meses

“É cansativo levar a maternidade sozinha.”

“Conheci o pai das meninas quando tinha 34 anos e fui viajar sozinha para Buenos Aires. Na época eu morava no Rio de Janeiro e ele em Goiânia. Em uma noite que não nos prevenirmos, tomei a pílula do dia seguinte. Mas mesmo assim, 20 dias depois descobri que estava grávida. Sou muito regulada e, quando atrasou, eu já sabia. Eu estava sozinha no Rio e sem a família por perto. Nunca cogitamos ficar juntos, pois não tinha um sentimento que fosse bastar para ter um relacionamento.
Passei minha gestação sozinha. Descobri que eram dois bebês no ultrassom, tive um sangramento e um colega de trabalho me acompanhou no exame, como se fosse pai. O médico me deu a notícia de gêmeos e custei a acreditar. Nunca passou na minha cabeça ter gêmeos! Não sabia nada sobre o assunto. Minha vontade era fechar as pernas e sair correndo do pronto-socorro da maternidade naquele dia. 
Minha mãe veio ficar comigo quando eu estava com quase 6 meses de gravidez. As meninas nasceram de 8 meses, prematuras, ficaram na UTI e depois decidi voltar para São Paulo, consegui transferência do meu emprego. Minha mãe desde então mora comigo. Durante o dia, tenho uma babá que nos ajuda. As bebês ainda acordam muito de madrugada. Saio de manhã para trabalhar e fico com elas à noite. Depois que dorme, vou fazer as minhas coisas, como estudar inglês. 
É cansativo levar a maternidade sozinha. Do aspecto psicológico, durmo pouco, não tenho nenhuma noite completa.. O emocional fica abalado: se uma das filhas fica doente, corro para o hospital, deixo a irmãzinha com a vó e vou sozinha. Nos momentos mais tensos, não tem ninguém para segurar no seu braço, para falar “estou aqui com você”. Sinto muita falta. Minhas filhas precisam muito de mim e é difícil levar tudo.
Outra parte difícil é ver a falta que elas sentem do pai. O contato é pouco porque ele mora longe, acaba visitando poucas vezes. Percebo que em lugares onde tenha algum homem elas querem ficar próximas e até chamar de papai. Não sabem distinguir ainda a figura paterna. E por mais que a gente tente suprir e dê muito amor e carinho, falta o papel masculino.
Eu digo que o meu caso é a constatação de que a palavra tem poder. Eu sempre sonhei em ser mãe mas nunca tive sorte nos relacionamentos (ou não sabia escolher, enfim, risos). Então eu dizia desde sempre aos meus amigos: “Vou esperar até os 35 anos, caso não esteja com ninguém, farei uma produção independente.” E olha que coisa, engravido aos exatos 35 anos e não teve bem pílula do dia seguinte que segurasse a força da palavra!
Não consigo tempo para isso, saio sim de vez em quando, mas muito raro e quando saio quero conversar e distrair, meu foco ainda não é paquera, pois são tão poucas oportunidades que quero aproveitá-las para falar com amigos sobre qualquer coisa que não a maternidade (risos). Agora que estou conseguindo voltar a cuidar de mim.Com as meninas cada dia mais independentes meu plano é conseguir olhar mais para mim. Foi muito difícil eu passar a ter essa mente de “mãe”, até hoje me sinto sozinha pois amigos somem com a maternidade também. Você vive aquele mundo só, já que são duas pessoinhas dependendo só de você! Tudo tem seu tempo, né? Agora é o tempo delas, em breve será o meu tempo e o delas e a vida seguirá normalmente.”

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