A chegada de gêmeos à família é sempre uma notícia muito comemorada e que atrai curiosidade de todos.

Mas quando os pais já têm um filho mais velho ou então quando nasce outro bebê após os gêmeos, a configuração familiar muda e é preciso prestar MUITA atenção.

Na primeira situação, por exemplo, o primogênito pode se sentir prejudicado por perder o posto de centro das atenções, agora em dose dupla. No segundo caso, quando os gêmeos são os mais velhos, pode ser que fiquem ainda mais unidos porque as atenções se voltam ao caçula, ao novo bebê. E quando são de sexos diferentes? E quando são trigêmeos? Como diz a personagem do desenho “O Show da Luna”, são tantas perguntas! E nós aqui da Me Two sabíamos exatamente para quem fazê-las quando discutimos este assunto.

Conversamos com a psicanalista argentina Adela Gueller, coautora da obra “Atendimento Psicanalítico de Gêmeos” (Zagodoni Editora, 2018). Somos fãs da Adela desde antes de sua palestra da Escola de Pais com curadoria da Me Two no Instituto Ling este ano, em Porto Alegre. E depois a cada novo encontro refletimos mais e mais sobre as colocações dela. Com vocês, Adela Gueller e o intrigante tema: gêmeos + relação com outros irmãos. Senta que lá vem leitura! Favorita para ler tudo depois! E envia também para aquela amiga que está precisando disso neste momento de vida.

camila gemeos filho maior
Um convite aos pais para pensarem no nascimento dos gêmeos pelo ponto de vista do filho mais velho – Foto: Camila Dilélio/arquivo pessoal

Quando o filho único ganha a companhia de irmãos gêmeos, quais os sentimentos mais comuns?

Adela Gueller: Quando nasce um irmão, o primogênito se sente desalojado porque perde o lugar de rei – e se o novo bebê é alguém semelhante, isso faz com que ele se pergunte sobre seu próprio nascimento. Mas quando nascem dois bebês juntos, o que até então era filho único sente que a dupla é dessemelhante a ele. Os gêmeos não são iguais a ele. O sentimento de desalojamento é maior e pode ser vivido como uma expulsão. A mãe e o pai se veem tão solicitados pelas demandas da dupla que fica difícil disputar a atenção dos pais. As reações do primogênito podem ser de revolta ou de melancolização, do tipo “eu não sou nada”. Os pais, ao se darem conta disso, podem tentar “compensar” o mais velho redobrando as atenções, deixando a dupla “se virar sozinha”, já que os gêmeos se têm um ao outro. Isso pode fazer com que os gêmeos se fechem entre si, formando um sistema fechado. Mesmo assim, os pais não podem evitar que os outros do entorno fiquem encantados com os gêmeos, que chamam muito a atenção, e que desse modo revivam os sentimentos de raiva ou de melancolia do mais velho. Fica difícil para ele rivalizar ou competir.  O mais velho vai tentar encontrar um lugar de exclusividade ou de acolhimento, às vezes se aproximando de uma avó ou outra pessoa próxima do entorno para quem ele se sinta preferido e onde não precise competir. Ele busca um refúgio.

E quanto aos gêmeos que nasceram antes e depois passam a ter que dividir tudo com o caçula: o que você observa nesta configuração familiar?

Adela Gueller: A resistência dos gêmeos à entrada de um terceiro remete à fascinação especular e mimética que a experiência gemelar suscita, assim como ao desejo de mantê-la. Por isso, quando chega outro irmão, os gêmeos podem ignorar sua presença, refugiando-se entre eles, por exemplo. Mas é importante assinalar que a manutenção dessa fascinação mútua pode ter um custo psíquico muito alto para os gêmeos, pois reforça a fusão e dificulta os processos de individuação. Se os gêmeos se fortalecem como dupla, o recém-chegado não se vê muito afetado no início. Só mais tarde pode acontecer que ambos formem uma espécie de “míni-gangue” para atacar o irmão mais novo. Este pode tentar se refugiar junto a um dois pais ou tentar se aliar aos irmãos, que então se enfrentam como trio frente aos pais. Temos que pensar que o complemento da união é sempre a segregação. Se os irmãos se juntam entre eles, alguém vai tentar se expulso. Esse outro podem ser os pais ou os colegas da escola.    

No caso de gêmeos de diferentes sexos: que situações podem ocorrer?

Adela Gueller: Já observei esse tipo de situações e acredito que a diferença sexual parece favorecer a individuação. O irmão de sexo diferente não precisa competir com a dupla do mesmo sexo. Em caso de trigêmeos, por exemplo, em que há dois meninos e uma menina, os meninos funcionam como gêmeos, enquanto a menina fica com características mais parecidas a uma irmã. A diferença de idade é substituída pela diferença sexual. Não é necessária tanta disputa nem está em risco uma fusão. O lugar está garantido para aquele que é de sexo diferente.   

Quando se tem dois filhos de idades próximas, não gêmeos, quais as questões de comportamento que os pais podem observar?

Adela Gueller: As disputas fraternas costumam ser mais acirradas quanto menores são as diferenças entre os irmãos. Nesse sentido, é possível pensar que se há disputa é porque há competição, isto é, porque ambos irmãos pensam que tem chances de ganhar a disputa.  Digo isto porque as disputas entre os irmãos são barulhentas e por isso convocam os pais a intervir. Mas gostaria de chamar a atenção sobre algo mais silencioso e que talvez possa ser mais preocupante. Às vezes a falta de brigas indica que um dos irmãos se retirou da disputa porque considera impossível ganhar. A distância do irmão é incomensurável. Em vez de estar no jogo, um dos irmãos pode preferir ficar fora da disputa. E isso pode passar despercebido porque não há barulho. Ou, por ser silencioso, não dá trabalho para os pais. Portanto, observe também o silêncio e a falta de competição entre eles. Podem ser mais preocupantes que as brigas entre irmãos. Também pode ser que as circunstâncias desfavoreçam um irmão (se um nasceu prematuro, por exemplo). Naturalmente os pais vão centrar os cuidados nesse filho que tem maior necessidade de atenção para tentar compensar o que falta para essa criança. Essa é uma das circunstâncias em que o irmão que não apresentou problemas pode se sentir em desvantagem para competir e inclusive sentir-se culpado se competir. O importante é que os pais possam suportar as rivalidades e os ciúmes entre os irmãos sem tentar equipará-los a todo momento. Irmãos que brigam muito na infância costumam ser muito unidos na vida adulta.

camila gemeos irmaos 2
Camila com Bento, Benício e Vicente

DEPOIMENTO

Camila Dilélio, jornalista, mãe do Vicente, 5 anos, e dos gêmeos Bento e Benício, 1 ano e 9 meses

“Foi um processo difícil para todos nós”

“Falar sobre a chegada do Bento e do Benício sob a ótica do Vicente me deixa muito emocionada. A segunda gestação, para mim, foi completamente diferente da primeira. Não apenas por serem gêmeos, mas porque tive muito mais medos. Um deles era se eu seria capaz de amar meus novos filhos como já amava incondicionalmente o mais velho. Também me questionava sobre como me dividiria para que os impactos dessa dupla chegada fossem os menores possíveis na vida do Vicente. Na minha cabeça, organizei momentos só nossos, saídas sem os bebês, brincadeiras a dois. Mas bastou os guris nascerem para os planos irem por água abaixo. Bento e Benício chegaram inundando meu coração de amor e virando nossa vida de pernas para o ar. Tivemos que aprender novamente a ser pais, assim como o Vicente precisou a aprender a ser um novo filho. Nossos momentos em família mudaram, afinal, novos integrantes agora faziam parte da família. Meu filho mais velho, no alto dos seus 4 anos, precisou aprender a dividir, a esperar. Aprender a adormecer sem segurar minhas mãos, ocupadas pelos dois bebês que choravam bem na hora em que ele costumava dormir. Foi um processo difícil para todos nós, principalmente para mim e para ele, que sempre fomos e ainda somos muito ligados. Ver meu filho com o olhar parado, esperando para receber a atenção que antes era só dele, foi das coisas mais difíceis que vivi enquanto mãe. Tenho certeza de que ele sentiu muito!

camila irmaos gemeos familia

Quando saímos para passear, e as pessoas (sem maldade, mas também sem a menor sensibilidade) direcionavam toda a atenção e os comentários para a duplinha, ele se recolhia e eu precisava agir. Orientada pela minha obstetra, chamava a atenção das pessoas para o “irmão mais velho” e, se elas não percebiam que ele precisava também de um olhar atencioso, retirava-me com a prole de onde quer que estivéssemos. Tentei sempre explicar que ele era muito importante e que as pessoas gostam de bebês, assim como ele gosta dos filhotinhos de bichos. Que os filhotes são fofos e chamam muito a atenção. Mas os bichos grandes são corajosos e mais espertos. Ele foi entendendo. Com o passar do tempo e a maior interação entre eles, tudo foi ficando mais tranquilo. Hoje, 1 ano e 9 meses depois, ele já não sente mais com tanta intensidade. Sabe os guris são apaixonados por ele e que ele é a referência dos irmãos. Ele curte isso. Às vezes bate um ciúmes, bem mais de leve. Tenho certeza de que foi um processo de aprendizagem para todos, pois eles têm uns aos outros. Isso é muito gratificante de ver. Hoje, ao vê-los brincando, desejo que sejam unidos e amigos, que a ligação entre os três seja forte e intensa, como costuma ser a relação entre gêmeos. Acho que não nasceram irmãos por acaso e vieram a esse mundo para se ajudar e aprender. E a aprendizagem às vezes é mesmo dolorosa. Mas no final, vale a pena!”

Leia também aqui no site da Me Two
@@ Entrevista com Adela Gueller: “Em uma sociedade individualista, temos muito a aprender com os gêmeos”
@@ A vida com quíntuplas: mãe que cuida de cinco meninas em SC conta sua rotina
@@ Micaela Góes: “Toda mãe de gêmeos precisa de ainda mais organização no dia a dia”
@@ As cinco perguntas que um obstetra mais ouve das grávidas de gêmeos