Como se pensa a individuação de dois pequenos seres que desde o primeiro minuto de vida dividiram tudo, inclusive a mesma barriga?

O tema é um dos questionamentos da psicanalista argentina Adela Gueller, que há sete anos estuda as particularidades dos gêmeos no mundo contemporâneo.

Adela foi a ministrante da primeira palestra da Escola de Pais com curadoria da Me Two na noite desta segunda-feira, no Instituto Ling, em Porto Alegre, com apoio da Escola Despertar e Censi Empreendimentos. Em sua fala, “Construindo a Individualidade”, a psicanalista conversou com a plateia formada por famílias de gêmeos e múltiplos sobre diferentes pontos de vista que envolvem esta questão. O momento contou com a importante contribuição de dois mediadores envolvidos com a causa: Andréia Saltz Grinberg, Psicóloga especialista em Infância e Adolescência e mãe dos gêmeos Benjamin e Gabriela, de 3 anos, e Rafael Borin, Advogado, irmão gêmeo do Daniel.

Coautora da obra Atendimento Psicanalítico de Gêmeos” (Zagodoni Editora, 2018), Adela observou o aumento do interesse sobre comportamento dos gêmeos e múltiplos nos últimos anos por conta da maior ocorrência destes nascimentos, em parte por efeitos da reprodução assistida. Não à toa, para debater estes assuntos, surgiu a confraria de mães da Me Two, que Adela elogiou em público:

– É incrível! Vocês procuram pares para trocar saberes. “Eu tentei desse jeito, eu tentei do outro jeito…” ou “Isso funcionou comigo, isso não…” – comentou.

Nos círculos de pais e mães de gêmeos e múltiplos, o tema da individualidade de cada filho é uma constante, pois desperta inquietações de ordem prática (como as decisões sobre colocar as crianças na mesma turma ou em aulas separadas) e também de ordem comportamental-filosófica, como provoca Adela:

– Como se contam os gêmeos? Como se conta um par? Como fazer de uma dupla de gêmeos dois indivíduos únicos? O desafio que tenho me proposto ao pensar o assunto é: a gente tem que pensar nas particularidades que cada um tem, mas também no que ter um irmão gêmeo representa.

Em uma era de exacerbação da individualidade, a psicanalista afirma que o mundo tem muito a aprender com os gêmeos: como trabalhar em dupla? Como trabalhar em equipe? Os irmãos gêmeos, lembra Adela, aprendem a dividir as coisas desde a barriga.

– Em uma sociedade tão autocentrada, se nós tomarmos o indivíduo como parâmetro, então os gêmeos sempre estariam defasados. Mas o quanto os gêmeos nos ensinam sobre maneiras de relacionar, sobre cooperação e sobre compartilhar (que é diferente de “emprestar”, pois não existe “isso é meu, isso é teu”)? – questiona.

A seguir, confira cinco pontos sobre comportamento gemelar e os pensamentos da especialista sobre individualidade.

 

1 | A intimidade entre irmãos gêmeos é uma das mais profundas dos relacionamentos humanos

“Eles têm uma intimidade entre eles que todos nós buscamos e sonhamos como modelo de amor romântico, aquele mais forte, nosso ideal de relação amorosa. Não à toa que culturalmente chamamos de ‘alma gêmea’ ao buscar um par. São casais que não conseguem viver separadamente, pessoas que partilham de uma intimidade parecida à gemelar. Temos muito a aprender com irmãos gêmeos. Alguns gêmeos, aliás, não se separam nunca. Há muitos que nascem juntos e morrem juntos, pois não conseguem viver separadamente. E há os que trabalham juntos. Vejam o caso dos irmãos grafiteiros que assinam como OSGEMEOS. São artistas que trabalham juntos e criam juntos, como se fossem dois pianistas tocando uma peça a quatro mãos. Eles nunca pensaram separadamente. Muitas vezes quando os gêmeos são levados a momentos de separação, sentem como se arrancassem uma parte deles quando não estão com o irmão. A força da dupla não é apenas 1 + 1. Quando estão juntos, têm super-poderes. Quando estão separados, é como se perdessem os poderes. Eles se sentem muito bem juntos. A questão da separação para eles se coloca mesmo é a partir da adolescência. Um começa a namorar e quem ficou para trás morre de ciúme.”

 

2 | Respeite o momento dos seus filhos e converse com a escola

“Nunca antes dos três anos os irmãos costumam ser separados. Então por que na escola seria diferente? Geralmente um é mais apegado, enquanto o outro tem mais autonomia. É preciso respeitar o tempo de cada dupla. As escolas devem escutar o que os pais têm a dizer, se as crianças estão preparadas, se ainda não estão. Do ponto de vista escolar, pode ser que eles tenham maior desempenho em dupla, por exemplo. Ninguém sabe melhor sobre como trabalhar em dupla ou conjuntamente do que irmãos gêmeos. Eles têm uma vida compartilhada. ”

 

3 | Não se cobre tanto a respeito do assunto “individualidade”

“Os pais de gêmeos já são muito exigidos. E muitos vêm com uma história prévia de tentativas de gravidez. Muitos casais já tiveram gestações interrompidas ou perda de embriões. Estão cansados. E então há a chegada de gêmeos ou múltiplos. E eles se auto-impõem uma pressão do tipo: ‘Nada mais pode dar errado agora’. Bom, isso é impossível. Chega como uma exigência a mais. Minha proposta para vocês, pais e mães de gêmeos, é: MENOS! Faz parte! Todos os pais erram. As crianças vão se virando.”

 

4 | Seus filhos gêmeos podem ter uma linguagem particular

“Comecei a me interessar pela chamada cliptofasia, que é a linguagem secreta dos gêmeos, como abordada no documentário ‘Carrego Comigo’ (dirigido por Chico Pereira, lançado em 2001, que traz histórias de 13 pares de gêmeos sobre questões afetivas e de identidade). Comecei a pensar nas razões da existência dessa linguagem. Há muitos casos em que o gêmeo é a parte mais importante para o irmão, mais até do que mãe e pai. É como formar uma família dentro da família. No entanto, pensar na separação entre eles é diferente de pensar a individuação. Às vezes um é mais aberto, outro é mais fechado. Um quer mais colo, o outro não está nem aí. Os pais sempre falam das diferenças de personalidades. Essas diferenças funcionam de forma complementar. Um vai melhor em português, outro em matemática, eles trocam as tarefas e um faz para o outro. É uma cumplicidade.”

 

5 | As mães de gêmeos também têm uma linguagem particular

“Tenho me proposto a observar o chamado ‘manhês’. É quando a mãe traduz o sentimento de um para o outro em sua própria fala. “João, diz para o teu irmão não chorar mais”. Ainda sobre este assunto, está sendo estudada a questão no atraso do desenvolvimento da linguagem que surge entre alguns pares de gêmeos. Linguistas pesquisam este tema porque existe entre os gêmeos uma comunicação sem palavras. Muitas vezes eles não precisam nem falar para se comunicar com o irmão. Então, talvez em um certo período da vida, não tenham a mesma necessidade de se comunicar com os outros.”

PALESTRA INDIVIDUALIDADE DE GÊMEOS
Rafael Borin, Elisa Scheibe Marty, Andréia Grinberg, Thaís Reali, Adela Gueller, Fernanda Linhares, Vanessa Rocha, Carolina Santos e Marina Sirotsky, equipe idealizadora do evento, clicados por Melisa Boz Fotografia.

 

SAIBA MAIS sobre a Escola de Pais, no Instituto Ling, em Porto Alegre

Ficou interessado em participar? Programe-se para nossas próximas duas palestras:

 

Palestra 2 – A contribuição da neurociência na criação de gêmeos e múltiplos

data: 04.09 – 19h com Fernanda Lucchese

 

Palestra 3 – O casal e a nova família após a chegada de Gêmeos e múltiplos

data: 02.10 – 19h com Ruggero Levy

 

Já participou da Pesquisa comportamental sobre gêmeos da Me Two em parceria com o Painel de Gêmeos USP? Clique aqui, entenda e participe!

Fotografia: Melisa Boz

@melisabozfotografia

melisabozfotografia@gmail.com