O “gêmeo solitário”: uma pessoa que nasceu sozinha, mas foi concebida em uma gravidez gemelar

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Muitas das pessoas que nascem sozinhas começaram a vida acompanhadas de um irmão ou irmã que morreu durante a gravidez e desapareceu sem deixar rastro.

Para os autores do livro “O Gêmeo Solitário”, este fenômeno ocorre com uma frequência bem alta.

Quando conhecemos o trabalho dos espanhóis Peter Bourquin e Carmen Cortés, ficamos impressionadas com esta linha de investigação, um trabalho pioneiro, que resultou em livro publicado em 2014. Ainda que os indícios venham de muitas décadas passadas, agora a comunidade científica se debruça mais sobre o tema.

“Gêmeo solitário” é um termo que se refere às pessoas que iniciaram a vida durante uma gravidez múltipla, em geral de gêmeos, e que perderam seu irmão ou irmã durante esse período, nos primeiros meses de vida intrauterina ou até no parto.

Os autores relatam que desde os anos 70 é fato conhecido e corroborado pela ciência que, entre 10% a 15% das gestações humanas são de múltiplos, embora apenas 1 entre 10 chega ao final na condição de parto de gêmeos.

Isso significa que pelo menos uma entre cada 10 pessoas iniciou a vida acompanhada por uma irmã ou irmão gêmeos e que o perdeu durante o período da gravidez, especialmente durante os três primeiros meses de gestação.

A ciência denomina esse caso também como o de um gêmeo evanescente, isto é, alude ao fato de que o outro gêmeo não deixou vestígio. Às vezes há vestígios biológicos, como uma segunda placenta ou um feto mumificado. Pesquisar estas ocorrências ajuda a entender a personalidade do gêmeo sobrevivente.

“Isso porque a relação entre gêmeos é a vinculação mais próxima que conhecemos entre todos os seres humanos, inclusive maior do que o relacionamento com a própria mãe”, defendem os autores.

Livro de Peter Bourquin e Carmen Cortés

Impactos de ter um gêmeo que não sobreviveu à gestação

São principalmente impactos psicológicos, explicam os autores. Eles investigam a experiência de viver as primeiras semanas ou meses junto a um gêmeo dentro do útero e depois sofrer sua perda e nascer sozinho.

Desde 2005, quando participaram da primeira oficina para gêmeos em Madri, Peter e Carmen promovem regularmente encontros com gêmeos solitários. Nelas, começaram a compreender a importância de eles terem iniciado a vida acompanhados e, por outro lado, os resultados que podem se manifestar na vida por terem sofrido a perda de um irmão.

Abordam a perspectiva biológica do fenômeno, depois a psicológica. Então, cedem o lugar a experiências pessoais que permitem observar em detalhe como esta vivência pode afetar as diversas facetas da vida.

Do ponto de vista da biologia

A partir dos anos 70, com a evolução das técnicas de ultrassom no campo da obstetrícia, foi possível observar diferenças nas ecografias. Percebeu-se que nem todas as gestações gemelares ou múltiplas chegavam ao final em um parto de gêmeos.

Nos anos 80, durante o 3º Congresso Internacional de Estudos Sobre Gêmeos, usou-se pela primeira vez o termo “gêmeo evanascente”. Foram apresentados casos em que no início da gestação se viam dois sacos gestacionais, porém mais tarde um deles desaparecia sem deixar vestígio físico, conforme ecografia posterior. A gravidez continuava sendo considerada como gravidez única e o parto ocorrendo com um só bebê.

Desde então, os pesquisadores passaram a tentar entender como é possível um feto desaparecer sem rastros?

Quando ocorre a maior parte das perdas

A grande maioria dos casos ocorre durante o primeiro trimestre da gravidez. O mais provável é que o pequeno feto ou embrião seja absorvido pela placenta ou pelo útero. Somente uma ecografia inicial anterior à nona semana mostraria a existência de dois sacos gestacionais. Uma ecografia aos 3 meses seria tardia demais, pois só apresentaria um único embrião.

O corpo da mulher é feito para sustentar em ótimas condições uma gravidez individual. No caso da gravidez gemelar, podem surgir muitas dificuldades ao longo do processo. Por isso o dado conhecido e confirmado desde os anos 70 é que muitas gestações que começaram como gemelares terminaram com o nascimento de 1 só bebê, encontrando sua explicação em que a própria natureza sacrifica o desenvolvimento de um feto para garantir a sobrevivência do outro.

Para cada casal de gêmeos vivos, há pelo menos 10 pessoas que começaram sua gestação como gêmeos, mas perderam seu irmão durante a gravidez.

Relacionamento dos irmãos é objeto de estudo

Pesquisas específicas são realizadas atualmente sobre o comportamento e o vínculo entre os gêmeos vivos. Isso permite também uma compreensão maior da experiência dos gêmeos durante uma gravidez gemelar e do vínculo entre eles.

O relacionamento entre gêmeos é a relação mais estreita que existe no contexto do conhecimento humano. Em boa parcela dos gêmeos vivos, esta é uma experiência cotidiana – a sensação de possuir um vínculo muito especial com o outro, e a necessidade de manter este contato para sentir-se próximo. E esta relação está ligada ao tempo compartilhado durante a gravidez.

Com frequência, os gêmeos descrevem a relação intrauterina com seus gêmeo como uma vivência de união total: no contato com o outro sentem-se completos. Mas quando acontece a morte de seu gêmeo, tudo muda! Estamos falando dentro do útero mesmo. Esta mudança ocorre quando percebe que o outro não está bem, que alguma coisa está acontecendo, que seu coração parou de crescer e bate mais debilmente. Como resultado, aumenta a sensação de preocupação, inquietação e alarme.

O sobrevivente costuma reagir de duas formas:

Pode ser que sinta sua própria vida ameaçada e em razão disso entra em estado de pânico, o que o faz ficar muito inquieto durante o restante da gravidez, movendo-se muito. Quando finalmente nasce, está marcado por uma angústia mortal em seu corpo. Mas também pode acontecer que permaneça em estado de choque e deixe de mover-se quase por completo, comparável a um estado de paralisia que se pode experimentar como consequência de uma situação traumática. Neste caso prevalecem sensações de desolação, tristeza e abandono.

Para surpresa dos autores do livro, eles comprovaram que estas fortes experiências acontecem na pessoa afetada mesmo quando a morte do gêmeo ocorre durante o primeiro trimestre da gestação.

Os autores relatam vários outros cenários possíveis: bebês que nascem mergulhados em um poço de tristeza, que só se sentem tranquilos no contato corporal com a mãe ou que choram muito durante os primeiros meses e até anos. Pouco a pouco se acalmam e chegam a deixar para trás essa dolorosa experiência.

“É um mundo solitário, ao qual ninguém tem acesso. As lembranças uterinas deixam impressões para o resto da vida”, escrevem os autores. “Seu gêmeo não está presente, o que costuma lhe causar uma profunda sensação de vazio. Pode ser que tenha tudo em sua vida atual – companheiro, família, trabalho, casa – mas continua da mesma forma tendo a sensação de que algo ou alguém lhe falta – e como a grande maioria dos gêmeos solitários não sabem que tiveram um gêmeo, não entendem a si mesmos, o que pode causar muita confusão.”

Depoimentos tocantes sobre o tema

Muitos gêmeos sobreviventes passaram por profundos processos de autoconhecimento, terapia, constelação familiar, grupos de apoio… Técnicas que os permitiram entender toda a situação, mesmo que antes não soubessem detalhes do ocorrido.

“Nunca senti que eu fosse uma gêmea sobrevivente. Mas pouco a pouco fui me dando conta de que estava imersa em uma dinâmica complementar: eu era a filha de uma pessoa que sempre sentiu que lhe faltava alguma coisa. Minha mãe sempre se esforçou por duas em seu trabalho e na família. Ao mesmo tempo, lembro dela sempre desfrutando da vida pela metade. Recordo de minha mãe comprando o dobro de tudo, de propósito ou sem querer. Dois pares de sapatos iguais, como se temesse não encontrá-los novamente para comprar, para quando o primeiro ficasse velho. Ou também era frequente ela ter dois exemplares do mesmo livro ou disco. Agora eu frequentemente me vejo presenteada com roupas e livros duplicados, por circunstâncias várias acabo tendo um perfil duplo em quase todas as redes sociais, dois endereços de Gmail, duas páginas no Facebook. Conhecer os aspectos ligados ao destino de um gêmeo que sobreviveu a seu irmão me proporcionou uma posição melhor no relacionamento com minha mãe e com a vida.” – Maria Consuelo Sánchez

“Nasci em um hospital público em Mar del Plata. No doloroso parto, nasceu uma menina de 1.900 kg e enquanto esperavam pela placenta, da bolsa uterina, apareceu outra bolsa, 20 minutos mais tarde, com um peso de 1.100 kg. Éramos gêmeas fraternas de 8 meses. Quinze dias depois, minha irmã morreu. Não comunicaram minha mãe para que ela não perdesse o leite. As enfermeiras traziam as bebês a cada 3h durante um mês, mas minha mãe notava que a segunda sempre mamava menos. Essa era eu, pois me levavam duas vezes. Até que minha mãe se deu conta. Esta é a absurda história do meu nascimento. Toda a minha vida tive a sensação de culpa por essa morte. Vivi momentos de intensa desolação. E a sensação de que minha mãe não compreendia meu sofrimento.” – Silvia

“Pensar em minha condição de gêmeo solitário é pensar na essência da minha própria vida. Acredito que desde que fiquei sabendo, não tenho feito nada de bom, só continuei vivendo. Gêmeo, ser gêmeo, quantas coisas se explicam com essa palavra. E solitário não é o melhor complemento para um gêmeo, porém é determinante. Hoje as coisas são diferentes. Talvez isso seja o melhor de tudo: saber. Minha irmã (eu a chamo de Luz), morreu, mas seu espírito já estava dentro de mim. Durante anos, apenas percebia o eco de sua ausência, o abandono, o adeus inesperado, a dor e a angústia de saber que a felicidade era o prelúdio da agonia. O medo, a tristeza inútil e inexplicável. A estranha sensação de que alguma coisa não se enquadrava na normalidade aparente. Saber disso colocou um ponto final em tudo. Agora sou feliz e caminho sem angústia.” – Jorge

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Camila Saccomori
Camila Saccomori
Jornalista de Porto Alegre e mãe da Pietra, nascida em 2011. Desde a gravidez, passou a produzir conteúdos femininos e voltados a famílias em vídeo, foto e texto. Trabalhou por 20 anos no Grupo RBS e hoje faz conteúdos para a Me Two e projetos de maternidade pelo seu novo "filho", o canal @VamosCriar.

2 Comments

  1. É um assunto de extrema importância e foimuito bem escrito e colocado.

  2. Gostei bastante do assunto, colocada de uma forma bem explicita e verdadeira.

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