Feliz Dia do Professor (de alunos gêmeos): pois dar aula para gêmeos e múltiplos também é diferente!

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Dia do Professor (de gêmeos)

Aqui na Me Two, a gente sempre diz que ter filhos gêmeos e múltiplos é diferente!

Então, em sala de aula, como é para o professor ter alunos gêmeos e múltiplos?

Neste 15 de outubro, a gente foi conversar com professores de gêmeos para ouvir o ponto de vista deles! E descobrimos que estão todos atentos ao assunto, tanto para casos em que os irmãos ficam em turmas diferentes ou então na mesma.

Confira o que conversamos com três professoras de gêmeos em diferentes escolas (uma delas é gêmea também!).

“Por que na escola deveríamos separá-los?”

– Quando recebemos gêmeos na escola, pensamos em colocar em turmas diferentes para que cada um tenha o seu núcleo de amizades, pois já convivem muito tempo junto e não precisam passar esse tempo dentro da escola também. Essa é a mentalidade que aprendi durante a faculdade e que tínhamos que respeitar – comenta Crisley Rocha, professora na Despertar Educação Infantil, em Porto Alegre.

Foi a chegada dos gêmeos Nicholas e Thomas que a fez rever os conceitos teóricos e ver na prática. Os meninos de 4 anos são filhos da coidealizadora da Me Two Thais Reali, que chegou à escola pedindo que os irmãos ficassem na mesma turma.

– Na hora pensei: “Meu Deus! Como vai ser? Essas crianças não vão ter a sua individualidade respeitada”. Mas, aos poucos, fui percebendo que eles têm sim as suas individualidades respeitadas e, acima de tudo, eles têm cumplicidade e apoio de irmãos. Eles cresceram, passaram muito tempo dentro do ventre juntos, um apoiando e consolando o outro. Depois no mundo externo, fora do útero, também tiveram essa convivência sempre próxima. Por que na escola deveríamos separá-los? Tive que desconstruir esse conceito de que precisavam ficar em turmas diferentes.

“A adaptação dos dois juntos já foi um sucesso”

Crisley conta que no processo gradual da adaptação, era bonito de ver o quanto o olhar do irmão um para o outro já servia de apoio. E aos poucos, eles foram criando as suas identidades com o grupo e fazendo amigos diferentes, mas também brincando juntos (pois não era apenas uma troca de escola, e também de cidade).

– Uma coisa que tive que fazer intervenções foi de um não responder pelo outro. Eu fazia algum questionamento para o Nicholas e o Thomas vinha responder. Eu falava: “Não, Thomas, vamos ver o que o Nicholas tem a dizer”. E vice-versa. É uma maneira de respeitar essa voz, a singularidade deles.

Para a professora, é importante também reservar um momento com a mãe para falar de cada aluno (mesmo que estudem na mesma turma). Fazer conversas individuais em horários diferentes para falar de um e depois de outro.

– São gêmeos, mas são diferentes. Hoje não consigo mais pensar em ter gêmeos em salas separadas porque essa convivência faz muito bem para eles e para o grupo. São irmãos, mas brincam de forma diferente e respondem de forma diferente. Isso é o respeito – opina Crisley.

“Cada criança tem seu ritmo e não deve ser comparada”

A professora Cristiane Rodrigues da Rosa Silva, pós-graduada em Psicopedagogia Clinica e Institucional, é mãe das gêmeas Marina e Ana Clara, 15 anos. Suas filhas sempre estudaram juntas e a mãe conta que sempre realizaram tudo separado, além de constituírem grupos de amizades distintos. Para ela, que leciona no Colégio Marista Pio XII e Escola Municipal Felippe Alfredo Wendling e já teve muitos alunos gêmeos na mesma sala ou em diferentes, os pais e os professores devem estar alinhados na visão desde o começo.

– Cada gêmeo tem sua identidade e precisa ser preservada da mesma forma como irmãos não gêmeos. É salutar respeitar e promover este espaço. Temos que estar atentos e sugerir opções onde as crianças possam aprender tranquilamente, num ambiente confortável, sem pressão ou comparação. Cada criança tem um ritmo. Com o gêmeo não é diferente!

Atitudes a observar do ponto de vista do professor

– Acredito ser positiva a frequência de irmãos gêmeos na mesma sala de aula, salvo casos onde a família não consiga fazer a separação de contextos. Uma das facilidade sem dúvida é a logística da família, sem falar no bem-estar na convivência com colegas (no caso de adaptações de grupos novos) – opina Cristiane.

A professora, que também tem uma irmã gêmea (e é professora também!) afirma que em sala de aula, é preciso estar atento para que um gêmeo não detenha a decisões sobre o outro – algo que é muito comum, caso o G1 tenha a tendência de se sobressair sobre o G2, “uma vez que o primeiro veio ao mundo como desbravador e o segundo pode desenvolver a atitude protetora e cautelosa de analisar o cuidado antes da ação”, avalia.

– Já observei casos que eram necessárias intervenções e ofertas diferenciadas para cada irmão, pois acredito que o papel do professor seja o de promover esta escuta e avaliar as necessidades.

E quando estão em turmas diferentes?

– A gente observa que os irmãos brincam sim mais no recreio (este tempinho longe me parece causar uma certa saudade e curiosidade pelo que o outro fez). Nas tarefas de casa pesquisam juntos e buscam realizar as propostas cada um no seu tempo. Mas os gêmeos que estudam juntos também brincam juntos no recreio… Vejo que as afinidades se dão ao modo de como cada um enfrenta suas vivências – conclui Cristiane.

“O professor tem que ter habilidades especiais e olhar a criança de forma singular”

Sônia Maria do Nascimento Alves, coordenadora educacional do Colégio Israelita Brasileiro, que participou com a Me Two do 1º Workshop em Gramado debatendo educação de gêmeos

“O ponto de partida para uma boa socialização é sempre a relação de afeto, a segurança que se estabelece e o olhar sensível dos professores e das famílias que fazem parte desse processo. A flexibilidade, a receptividade e uma boa formação dos professores com conhecimento profundo sobre cada faixa etária certamente contam muito. Cada criança é singular em suas características e necessidades. Em especial se tratando de gêmeos e múltiplos, deve ser mais competente ainda a observação do contexto em que cada criança está inserida. Assim, juntos ou separados, elas conquistarão seus espaços com autonomia, vão construir aprendizagens significativas e, acima de tudo, vão ser muito felizes. Se formos pensar em um professor com todas essas habilidades, as crianças têm muito a receber no convívio diário. Ao meu ver, durante mais de 30 anos trilhando as salas de aula de educação infantil e agora na gestão, isso é de extrema importância e de muita responsabilidade com o desenvolvimento saudável dessas crianças. O professor tem que ter habilidades muito especiais também, como abertura, responsabilidade e receptividade, para olhar todas as crianças de forma singular. Cada uma delas tem a sua identidade e suas necessidades individuais”.

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Camila Saccomori
Camila Saccomori
Jornalista de Porto Alegre e mãe da Pietra, nascida em 2011. Desde a gravidez, passou a produzir conteúdos femininos e voltados a famílias em vídeo, foto e texto. Trabalhou por 20 anos no Grupo RBS e hoje faz conteúdos para a Me Two e projetos de maternidade pelo seu novo "filho", o canal @VamosCriar.

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