Os gêmeos Maria Flor e Noah quando nascerem entre agosto e setembro vão entrar para a história.

Serão filhos do primeiro caso registrado de um pai por produção independente no Brasil. E quem está gerando os bebês por barriga solidária é a mãe do futuro papai.

Marcelo Neves Junior, estudante de enfermagem, 24 anos, mora em Serrana, no interior de São Paulo. Há alguns anos, desde que assumiu para a família ser homossexual, já nutria a vontade de ter filhos. Sabia que por conta de sua orientação sexual, iria acabar recorrendo a técnicas de reprodução assistida.

Foi após uma triste ocorrência com a mãe que a ideia começou a se fortalecer. Valdira, então com 41 anos, engravidou naturalmente e teve pré-eclâmpsia, que causou o nascimento prematuro da bebê, falecida após 7 dias do parto. Passado um tempo do acontecimento que mexeu com todos, Marcelo compartilhou com seus pais o desejo de ter filhos. E convidou a mãe para ser sua barriga de aluguel. E para felicidade de todos, ela aceitou!

“Eu queria ser mãe mais uma vez. Juntou a minha vontade com a dele de ser pai, unimos o útil ao agradável. Vou ser mãe-vó e ele vai realizar o sonho de ser pai”, explica Valdira, professora, hoje aos 43 anos.

Para ser autorizada a gestação por meio de barriga de aluguel (agora chamado de “barriga solidária”), a mulher escolhida precisa ser parente em até quarto grau dos pais, conforme orientação do Conselho Federal de Medicina.

Foram 4 tentativas de fertilização in vitro até a gravidez dar certo. Os óvulos foram doados anonimamente e unidos ao sêmen de Marcelo, que no total gastou cerca de R$ 25 mil nos procedimentos. Antes de tudo isso ser possível, Marcelo e a mãe passaram por uma bateria de exames e fizeram 3 meses de acompanhamento psicológico.

Esta seria a última tentativa de fertilização, pois o processo todo foi muito desgastante para a família. Dois embriões haviam sido implantados. No dia do ultrassom para verificar se o tratamento havia dado certo, Marcelo vestiu uma camiseta com uma pequena-grande palavra estampada: . Quando colocaram o aparelho para o exame, o estudante de enfermagem logo identificou dois sacos gestacionais e gritou, emocionado: “São dois, doutora!!. E ela confirmou: “Nossa, você viu antes de mim!”. O jovem ri ao lembrar da cena:

“Foi maravilhoso ver os dois corações batendo! Foi uma enorme surpresa. E depois, com 15 semanas, descobrimos que seriam 1 menino e 1 menina. Aí a felicidade que já era gigantesca aumentou 1001%!”, recordou para a Me Two.

Agora, o futuro papai e a futura mãe-vó preparam o quartinho enquanto cuidam muito da saúde. Valdira está na 22ª semana de gestação e deve baixar o ritmo daqui a 1 mês, para evitar que os bebês nasçam prematuros. Uma grande equipe multidisciplinar do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto cuida da gestação: são 4 obstetras, uma nutricionista, um pneumologista e um cardiologista monitoram a grávida de perto.

Os bebês vão ser registrados apenas no nome de Marcelo. Eles pretendem contar a história aos gêmeos da forma mais natural possível, desde pequenos. Todos moram juntos e a mãe vai ajudar a criar a dupla. Já foi estabelecido que os bebês vão chamar Marcelo de pai e Valdira será chamada de vó, por mais que exerça o papel da figura materna, inclusive com planos de amamentar os bebês.

“Nem a clínica de reprodução estava preparada para enviar a documentação necessária para fazer o processo juridicamente. É bem complexo! E agora vou ser o primeiro pai por produção independente de que se tem notícia no Brasil. E estou muito feliz pois minha barriga solidária é minha própria mãe. Da minha família só a minha mãe estaria disposta a fazer esse gesto por mim”, conta Marcelo.

A escolha em ser pai independente se baseou também na experiência de Marcelo de estar solteiro e perceber que os relacionamentos estão cada vez menos estáveis.

“Não queria esperar encontrar um parceiro daqueles de ficar para o resto da vida”.

E para poder cuidar dos bebês como pai solo, conseguiu um grande apoio: seus chefes deram o maior apoio. Ele trabalha como analista financeiro em uma empresa multinacional e terá 5 meses de licença-paternidade em casa com os bebês.

“A cada dia que passa dá mais ansiedade. Quero ver logo as carinhas dos meus gêmeos. É uma experiência única!”, comemora Marcelo.

O pai de Marcelo diz que até agora só ouviram reações de apoio à decisão do filho e da esposa. E a mãe disse que pelo filho faria tudo novamente.

“O que a gente faz por um filho sempre vale a pena. E ser mãe-vó é o mais bonito que tem! O que importa é ser feliz, não importa se o seu filho é homossexual, se é hétero, é a união da família que desejamos, é o amor“, finaliza Valdira.

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