Uma hora, mais cedo ou mais tarde, elas costumam surgir: as brigas.

Mesmo que brinquem juntos, sejam grudados e se amem, seus filhos gêmeos em determinadas situações vão entrar em disputas: pelo colo da mãe, pelo brinquedo ou até por uma roupa.

Conversamos com famílias com crianças gêmeas e perguntamos quais as brigas mais comuns em suas casas. Então, para responder sobre como reagir em cada situação, enviamos para a psicóloga especialista em parentalidade consciente Iara Mastine, que estará no nosso 1º Workshop Nacional de Gêmeos e Múltiplos, no dia 6 de abril, em Gramado. Iara é coach de pais e filhos, com certificação pela The Parent Coaching Academy (Reino Unido) pela Academia de Parentalidade (Portugal), sendo a única facilitadora em Parentalidade Consciente no Brasil.

Separamos as situações conforme a faixa etária, de 1 ano até os 7 anos das crianças:

“Choram por qualquer coisa e brigam pelo mesmo brinquedo”

Leliane, mãe da Isabela e da Giovana, 1 ano

Iara comenta: “As crianças de 1 ano ainda estão aprendendo como funciona pegar um brinquedo e brincar com ele. Por isso é preciso um olhar personalizado a esta questão, ver se há uma necessidade de individualização. Então na hora que pegar o brinquedo do outro, você pode verificar se o interesse é o brinquedo ou retirar o brinquedo do outro. Devemos lembrar que eles estão desenvolvimento suas habilidades de socialização. A observação ajudará a identificar o desenvolvimento da personalidade de cada um, se um domina mais do que o outro, se cede mais… Às vezes uma criança tem uma personalidade muito forte e acaba dominando o outro irmão, se o outro é muito quietinho… Precisa ter um olhar individualizado pra cada um. Há muitos casos em que os irmãos funcionam muito bem juntos, trabalham a colaboração, potencializam tudo. Mas quando brigam, cada caso é um caso.

brigas gemeos

“Brigam por tudo, até pelo colo da mamãe”

Amanda, mãe do E. e do R., 2 anos e 5 meses

Iara comenta: A literatura fala muito dos “terrible two”. Para entender por que isso ocorre, precisamos ter em mente que nos primeiros anos de vida do bebê, ele só engatinha e é totalmente dependente do outro. Não consegue comer sozinho, tampouco falar. A partir dos dois anos, a criança já consegue se expressar e tem bom arsenal vocabular. Frases como “eu quero” ou “é meu” passam a ser usadas constantemente, além de ele se comportar de modo opositivo às solicitações dos pais. Na prática, a criança passa a verbalizar aquilo que deseja (ou não). E é aí que começam os conflitos entre pais e filhos, e também entre irmãos. Ainda mais na relação de gêmeos, onde ambos estão competindo por espaço, por atenção e por se desenvolverem. Mesmo que estejam com 2 anos e 5 meses, o tempo de desenvolvimento de gêmeos não costuma ser o mesmo para uma outra criança, que por exemplo, não nasceu prematura. Além disso, as fases não são tão exatas assim. Existe a interferência do meio, das experiências… precisamos olhar sempre de forma ”bio-psiquicossocial”. Essa fase é uma espécie de “adolescência do bebê”.

“Brigam pela roupa, quando um escolhe uma camiseta e o irmão quer usar aquela também”

Julia Sutoff, mãe do Bento e do Thomas, 3 anos e 4 meses

Iara comenta: “As roupas são as mesmas para os dois e isso gera conflito? Será que a gente não precisa então começar a individualizar e assim a promover o compartilhamento? Por exemplo: eu tenho uma blusinha vermelha e os dois querem, será que nesse momento não vale a pena determinar qual é de um ou de outro? Ou as próximas que comprar serem semelhantes? Ou então fazer combinações: hoje é dia de um emprestar para o outro. Qual peça você vai emprestar para o seu irmão? Promover a colaboração entre eles: esta é uma emoção que deve ser aprendida e cabe aos pais ensinar para as crianças.

“Meu maior desafio é tentar manter a paz e ordem entre as duas. Passam o tempo todo brigando por qualquer coisa”

Daniele Maurer, mãe da Lavínia e da Rafaela, 6 anos

A explicação de Iara e suas dicas: “Entre 6 e 7 anos as crianças estão aprendo a gerenciar seus sentimentos. Precisamos sempre tentar entender o comportamento relacionado-o ao desenvolvimento infantil. No caso das brigas, pode ser que as crianças envolvidas estejam se sentindo injustiçadas, ou demonstram competir pelo colo, ou simplesmente uma de criança demonstra o interesse pelo o que a outra possui… Precisamos olhar para a necessidade da criança. O comportamento é de briga, mas você tem que olhar o que há por trás. Tem gêmeos que têm personalidades bem diferentes e um necessita de independência enquanto o outro demonstra a necessidade de ter a mãe mais próximo. E aí em alguns momentos que a mãe esteja com esse, será que o outro não está pensando: “Cadê meu espaço, cadê meu carinho?” Mesmo que seja algo que ele não necessita, ele pode estar olhando para esta situação de uma maneira diferente. É preciso tentar perceber porque as irmãs estão brigando e tentar se antecipar as estes momentos. Procurar identificar e personalizar a atenção para cada um, criar momentos pra cada filho, por mais que eles sejam grudados. O pai sai um dia com uma, a mãe sai com a outra e no outro dia revezam. Isso colabora com a personalização de cada um, do “eu”.

“Uma implica com a outra o tempo todo!”

Deisi Costa, mãe da Desirée e da Gabrielle, 7 anos

Iara comenta: “Quando a gente está nervoso com alguma coisa, é instintivo o nosso corpo fazer um movimento brusco. Por exemplo, a gente chuta, fecha a porta do carro com força, dá um gritinho, porque precisa disso para extravasar a raiva. A criança também, mas ela não sabe como. Ela está aprendendo a gerir suas emoções. A gente pode auxiliar nesse contexto: “Está com raiva, filha? Estou vendo que você está querendo brigar com a sua irmã. Vamos lá para um cantinho onde a gente possa extravasar isso? Pega uma almofada, faz ela bater 50 vezes na almofada como se fosse um tambor, para sair daquilo. Depois explora essa sensação. Proponha à criança: “Pára um pouco, vamos ver seu corpo agora? Fecha os olhos filha, como você está? Está conseguindo sentir que a sua raiva foi para fora e entrou um pouquinho da calma em você? Explore muito os sentimentos dela, tanto nessas situações práticas vivenciadas pela criança como em outras que podem aproveitar para ensinar. Se vocês estão assistindo um filme e tem alguém chorando e se sentindo injustiçado, pergunte: “nossa, o que será que ele está sentindo? o que você acha que ele tem agora?” e vai trabalhando esta questão com as crianças.

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