Gêmeos juntos na sala de aula ou separados: pesquisa mostra opinião das mães

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Uma dúvida muito comum entre famílias com filhos gêmeos é: separar ou não as crianças na escola.

E essa questão surge desde a Educação Infantil e segue até o Ensino Fundamental.

Aqui na Me Two já falamos duas vezes sobre o assunto: primeiro trazendo as descobertas das pesquisas existentes sobre o assunto. Várias mostram as vantagens e as desvantagens de manter os irmãos gêmeos na mesma sala de aula ou em turmas diferentes. Depois, no 1º Workshop Nacional de Gêmeos e Múltiplos Me Two, realizado em Gramado em abril de 2019, a coordenadora pedagógica do colégio Israelita Sônia Nascimento conversou sobre educação dos gêmeos em turmas diferentes.

Hoje, mostramos os resultados de uma recente pesquisa brasileira, realizada por Isabella Franca Ferreira, mestranda em Psicologia Experimental pela faculdade de Psicologia da USP. Sua dissertação será defendida em fevereiro. O objetivo da pesquisa foi de verificar as causas e as consequências da decisão de separar ou não os gêmeos em salas de aula distintas sob a perspectiva materna.

Participaram cerca de 600 mães de gêmeos brasileiros a partir de um formulário online, coleta divulgada nas redes sociais via Painel USP de Gêmeos e em parceria com a Me Two. Entretanto, devido aos critérios da pesquisa, foram selecionados cerca de 300 participantes.

A idade média das mães que responderam é 37 anos, altamente escolarizadas e predominantemente da região Sudeste, seguida pela Sul. Os pares de gêmeos têm idades entre 2 a 10 anos: 43% eram monozigóticos, 30% dizigóticos do mesmo sexo e 25% dizigóticos de sexo diferente. Esses gêmeos estavam na creche, na pré-escola e no Fundamental 1.

“A entrada na escola é um evento muito peculiar na vida de qualquer criança. Normalmente é a primeira vez que essas crianças vão estar se separando dos seus pais e interagindo com adultos com quem não estão familiarizados. No caso dos gêmeos, muitas vezes é a primeira vez que eles estão se separando também do irmão. Estudos no Exterior mostram que algumas escolas separam os gêmeos, ou mantém eles juntos sem o consentimento dos pais e das mães, sem pensar no bem estar e nas peculiaridades desses gêmeos”, analisa Isabella.

Espera-se que esta pesquisa seja um primeiro passo para pensarmos nesse tema tão importante. No futuro, a intenção também é escutar aos profissionais escolares e principalmente os próprios gêmeos.

A seguir, confira os principais tópicos da pesquisa!

Como é a situação escolar dos gêmeos no Brasil?

Isabella descobriu que 65% dos gêmeos da amostra estudavam juntos, enquanto 34,8% estudavam separados.

“Isso já é diferente, por exemplo, de estudos realizados nos Estados Unidos. Lá, essa taxa de separação chega a 80%. Pode ser devido a cultura americana, que é mais individualista e preza mais pela autonomia. Já no Brasil, priorizamos mais as relações familiares. Isso é uma interpretação para explicar a alta taxa de gêmeos na mesma turma aqui no nosso país”, analisa Isabella.

Nesta mesma questão, a pesquisa apontou que 65% das mães participaram da decisão.

“Isso também já é diferente, pois no Exterior muitas vezes as mães não são consultadas. E a participação é mais ativa em escolas particulares também”, interpreta a pesquisadora.

Como é a posição das escolas em relação ao tema

As mães responderam que aproximadamente 60% das escolas eram flexíveis. Isso quer dizer que ouviam os pais, ouviam os gêmeos e, juntos, chegavam a um consenso. Já 26% insistia na separação, o que Isabella considera um número preocupante.

“De todos os estudos feitos no exterior, é consenso que essa decisão tem que ser feita em conjunto. Não pode só a escola insistir porque acham que é a solução ideal. É preciso conhecer a realidade de cada gêmeo e de cada família”, explica.

O que dizem as mães

A individualidade foi um ponto bastante destacado pelas mães em relação a quererem separar, para ajudar na formação da personalidade distinta. Houve também histórias de mães que colocaram juntos e depois decidiram separar porque isso atrapalhou no desenvolvimento, com relatos de aspectos da relação como dominância e conflito, por exemplo. Uma das participantes relatou assim: “Sabemos que há sempre o gêmeo dominante, aquele que dita as regras. Acho importante separar as crianças para que o gêmeo não dominante possa fazer suas escolhas sem a influência do irmão dominante”.

Sobre a imposição escolar, uma mãe deu seu depoimento na pesquisa: “Acho que a necessidade de separação é muito mais da escola do que dos gêmeos ou da família. Escuto coisas do tipo ‘É para evitar comparações’, e me pergunto: quem irá comparar? A professora? Porque na minha realidade não é natural compará-las”.

Também surgiu o aspecto da rotina e da praticidade como elemento de decisão, como uma família relatou: “As mães já estão exaustas do dia. Ter os filhos em salas separadas torna o trabalho bem mais difícil, principalmente para mães que trabalham e são sozinhas. A correria é grande na hora de levar as crianças na escola”.

Que fatores influenciam as práticas maternas?

A pesquisa descobriu que, quanto maior a idade, maior a probabilidade das mães quererem separar os seus gêmeos. E mães com maior renda separavam mais os seus filhos, pela questão da autonomia. “Estudos têm mostrado que quanto maior a renda, maior a valorização da autonomia e da individualidade, então uma forma de conquistar isso seria separando os gêmeos na escola, dentro da perspectiva materna”, pontua Isabella.

Além da renda familiar, outro ponto crucial em manter gêmeos juntos ou separados na mesma turma foi a cidade onde vivem. Dividindo a amostra de participantes entre cidades pequenas, médias e grandes de acordo com tamanho populacional, a pesquisa mostrou que mães que viviam em cidades grandes separavam mais seus filhos.

Como a relação dos irmãos impacta na decisão

A gente quis saber: o relacionamento influencia nessa questão da separação? Contamos com 422 participantes e elas reportaram que os gêmeos que apresentavam maior rivalidade eram mais separados.

“Como essa questão da rivalidade é bastante intensa e acaba prejudicando a relação, a mãe (em uma expectativa de que isso melhore) acaba separando os gêmeos”, avalia Isabella.

Na questão da dominância também foi a mesma coisa, mas os monozigóticos de 6 a 9 anos eram os mais separados. Por que de 6 a 9 anos? Pois 6 anos é quando a criança tá entrando para o Fundamental I. Ela está no mínimo dois anos na escola obrigatoriamente, já está mais habituada, mais segura, então as vezes a mãe se sente mais segura para separar nessa faixa etária.

Como os gêmeos reagem à separação?

Na pesquisa, 25% das mães na nossa amostra nunca separavam seus filhos em nenhuma hipótese. Uma das mães deu o seguinte depoimento: “Minhas gêmeas nunca vão à escola uma sem a outra, seja qual for o motivo, em hipótese alguma. Elas não se sentem seguras uma sem a outra”.

A pesquisadora refletiu sobre esta variedade de tipos de criação que as mães de gêmeos estabelecem com seus filhos. Enquanto algumas tratam os gêmeos como uma unidade que não pode ser separada, outras mães investem em práticas de individualidade (como, por exemplo, sair um dia com um filho, outro dia com o outro filho, para dar uma certa particularidade para cada criança).

As mães também falaram que o gêmeo 1 reagia diferente do gêmeo 2 e vice-versa. “Às vezes o gêmeo 1 queria ser separado e reagia superbem a isso, e o gêmeo 2 não gostava, se sentia chateado e frustrado. Isso também é interessante. Nesses casos, como fazer? Como agir? As reações comuns a separação foram tristeza, saudade e preocupação, e no reencontro era só alegria, abraço e euforia”, explicou a pesquisadora.

De forma geral, os pontos positivos de se estudar juntos são a segurança e o apoio de um para outro, além da facilidade na organização da família. Muitas mães também apontaram que quem estudava junto também tinha amigos e personalidades distintas mesmo estando no mesmo ambiente. Em relação aos pontos negativos, a dependência não só na relação, mas também de aprendizado, foi citada. Como um irmão fazer a lição para o outro, por exemplo. Ou quando um deles não conseguia fazer a tarefa sem o outro gêmeo junto.

Já os pontos positivos de se estudar separados são, segundo as mães: a individualidade a diminuição de conflitos, além de evitar a comparação. Já o ponto negativo de não estarem na mesma turma é o sofrimento que as mães relatam que os filhos sentem, pelo menos nas primeiras fases da separação.

Uma das mães participantes do estudo relatou que visitou um colégio em que os gêmeos eram sempre separados: os irmãos não se encontrariam nem no intervalo do lanche, o que a deixou muito surpresa.

Conclusão: juntos ou separados? Não existe regra!

“Não se pode dizer que todo gêmeo deve ser mantido separado ou juntos na turma. Mas às vezes a escola trata como se existisse essa regra ou um padrão”, conclui Isabella. Para descobrir se separar ou manter juntos seria necessário um estudo longitudinal que fosse acompanhando gêmeos ao longo da vida e do tempo (por exemplo, dos 3 aos 12 anos de idade das crianças) para verificar os benefícios para o desenvolvimento dos irmãos. Estudos no Canadá, Inglaterra e Holanda já realizaram pesquisas nesse formato, mas com outros parâmetros, focando mais em aspectos cognitivos, como desempenho escolar, motivação, notas e habilidades de leitura. A maioria não encontrou diferenças significativas. Ou seja, a decisão tem que ser baseada na realidade de cada dupla e de cada família, para ter uma visão integral. E saber que nenhuma decisão é definitiva! “Nada impede que no próximo ano seja mudado. Às vezes o que funciona no começo não funciona mais depois. Não se deve ter receio – e é importante que as escolas sejam flexíveis nesse sentido”.

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Camila Saccomori
Camila Saccomori
Jornalista de Porto Alegre e mãe da Pietra, nascida em 2011. Desde a gravidez, passou a produzir conteúdos femininos e voltados a famílias em vídeo, foto e texto. Trabalhou por 20 anos no Grupo RBS e hoje faz conteúdos para a Me Two e projetos de maternidade pelo seu novo "filho", o canal @VamosCriar.

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