Seu nome é sinônimo de pesquisas e estudos sobre gêmeos: Nancy Segal é uma psicóloga americana especializada no universo de gêmeos e múltiplos.

A Me Two conversou com Nancy para descobrir quais são os assuntos mais curiosos sobre o comportamento de irmãos gêmeos e o que a ciência já tem como fatos para explicar os principais mitos.

Seu interesse pelo assunto começou por ela própria ter uma irmã gêmea e ficar fascinada em observar suas semelhanças (e diferenças!) da dupla. É fundadora do “Twin Studies Center”, na California State University em Fullerton, e desde então se especializou em psicologia evolucionária e genética comportamental. Nós estivemos com ela no último Painel USP sobre gêmeos e ficamos impressionadas com o vasto conhecimento dela sobre a área! Já entrevistou centenas de famílias de gêmeos pelo mundo todo nas últimas três décadas e afirma:

– Todos os assuntos relacionados a gêmeos são fascinantes, mas a forma como suas mentes funcionam é o que mais gera curiosidade, como saber sobre como eles pensam, falam e agem em comparação a quem não tem um irmão gêmeo.

Para a Me Two, Nancy elencou os 3 mitos e fatos sobre gêmeos que mais despertam curiosidade da mídia e do público e tudo o que já se sabe sobre:

(1) Gêmeos têm telepatia?
(2) Gêmeos sempre saltam uma geração?
(3) Gêmeos devem ficar juntos na mesma sala de aula?

(aliás, aqui na Me Two esta pergunta chega muitas vezes!)

Vem com a gente para se informar sobre cada um destes tópicos aqui! E nas próximas semanas traremos muito mais conteúdos de Nancy, afinal ela é uma verdadeira enciclopédia viva sobre nosso universo múltiplo!

(1) GÊMEOS TÊM TELEPATIA?

Este assunto é tão complexo que rendeu capítulos de um livro inteiro, publicado em 2017 (“Conceitos de mitos gêmeos: falsas crenças“. Para a Me Two, Nancy comenta que é frequentemente contatada pela imprensa a explicar os chamados “fenômenos psíquicos de gêmeos”, (geralmente idênticos), conhecidos como ESP – a aquisição de informações por outros meios que não um dos cinco sentidos, portanto extra-sensoriais. E ela decreta:

– Na minha opinião, não há evidência científica suficiente de que gêmeos intencionalmente (ou não) transmitam mensagens mentais de um para o outro. Sei que muitos ficam desapontados ao me ouvir dizer isso, mas até agora não se conseguiu provar.

As crenças sobre a “telepatia gêmea” se originaram do fato de algumas duplas se comportarem como se pudessem ler a mente um do outro. Quando os gêmeos “sabem” que o irmão está chamando, que está com problemas, que está em trabalho de parto ou apenas sabem como o gêmeo está se sentindo.

– Eles estão expressando a preocupação e o carinho constantes que é a marca registrada da maioria dos relacionamentos entre gêmeos idênticos. E quando gêmeos criados separados leem independentemente os mesmos livros ou desfrutam do mesmo hobby, eles não podem se comunicar porque muitas vezes desconhecem que o outro gêmeo existe. Estão refletindo suas habilidades correspondentes, gostos e temperamentos – explica.

Assim, suas semelhanças podem ser mal interpretadas como um tipo de conexão psíquica. Mas a própria Nancy alerta: a falta de evidências científicas não significa que algo não exista, afinal “as pessoas esperaram anos pela prova de que o mundo é redondo e que a Terra circunda o sol”. As histórias contadas por gêmeos acerca de roupas semelhantes e outras escolhas, por exemplo, são observadas por todos os autores dos estudos realizados  como “uma provável reflexão de concordância ou tendências geneticamente influenciadas”, em vez de telepatia.

Nancy Segal
Nancy Segal

(2) GÊMEOS PULAM UMA GERAÇÃO?

Resposta curta: esta é uma afirmação falsa! 

– Gostaria muito de saber como este mito começou. Nos meus muitos anos de pesquisa com gêmeos, conheci apenas uma ou duas famílias nas quais gêmeos fraternos apareceram em uma geração e desapareceram na próxima, apenas para reaparecer na geração que se seguiu.

Resposta longa: talvez o problema seja que as famílias historicamente não registram todos os nascimentos de gêmeos ou simplesmente não lembram quais parentes tiveram gêmeos e que tipo de gêmeos (idênticos ou fraternos) nasceram.

– O aumento das taxas de geminação expandiu a consciência gêmea da sociedade em grande parte. No entanto, não saber se os filhos gêmeos da sua tia ou os tios gêmeos do seu primo são idênticos ou fraternos não me surpreende porque o teste do tipo gêmeo não é realizado rotineiramente, mas isso é outra história para outro momento – explica Nancy.

A verdade é que não é possível prever com precisão os gêmeos na família, ou seja, o padrão de transmissão entre gerações é desconhecido. Além disso, mais de um gene pode ser responsável pela geminação, dificultando o rastreamento nas famílias do que as características ligadas a genes únicos, como as que codificam o tipo sanguíneo e o daltonismo. Sabe-se que muitos fatores vão além da genética, como idade materna ou etnia. Mas se a ocorrência de gêmeos parece pular gerações, isso pode refletir fatores genéticos nessas famílias ou eventos aleatórios.

– Observo que as famílias com mais de um par gêmeo naturalmente concebido estão, compreensivelmente, ansiosas por explicações sobre sua frequência de nascimentos múltiplos. Eles costumam me perguntar se a hipótese de pular gerações se aplica a eles, mesmo que o nascimento de gêmeos em sua família não siga esse padrão. Acredito que a popularidade dessa explicação vem de sua simplicidade e facilidade de aplicação à própria família, observando o que pode ocorrer por acaso.

(3) SEPARAÇÃO ESCOLAR: GÊMEOS DEVEM FICAR EM TURMAS DIFERENTES?

Esta é uma pergunta que chega com muita frequência para Nancy – e também aqui nas redes da Me Two! Os gêmeos sempre devem ser colocados em salas de aula separadas? Veredito de Nancy: não!

– Um fato: pesquisas mostram que as crianças são mais animadas e mais engajadas em novas atividades em sala de aula quando um colega familiar está por perto. Esta é uma mensagem importante para qualquer pessoa preocupada com a felicidade e o bem-estar dos gêmeos. Mas, em vez disso, educadores e administradores temem que os gêmeos falhem em desenvolver um senso de identidade e individualidade se não forem separados quando chegarem à escola pela primeira vez.

A pesquisadora enfatiza que desconhece políticas definidas para decidir onde ou com quem crianças não-gêmeas devem estudar, certo? Assim, argumenta que os gêmeos não devem ser mantidos em padrões mais elevados do que os não-gêmeos. Considerando que todas as crianças deixam seus pais e um ambiente familiar ao entrar na escolinha infantil, Nancy acredita que é desnecessário e até injusto ou insensível exigir adicionalmente que os gêmeos se separem. E ela própria relata a memória viva de sua primeira experiência escolar.

“Eu tinha 4 anos quando entrei no jardim de infância. Minha mãe acompanhou minha irmã gêmea, Anne e eu, até nossa nova escola no norte da Filadélfia. De repente, tivemos que nos despedir sem saber o porquê. Anne foi escoltada para uma sala de aula grande e animada com uma professora entusiasmada e sorridente, enquanto fui enviada para uma sala de aula menor e menos emocionante, dirigida pelo que me parecia ser um ‘tirano’ carrancudo e intimidador. Fiquei aterrorizada. Lembro que alguém enviou Anne para ir à minha sala de aula para me acalmar. Os dias seguintes foram difíceis e eu me lembro de sentar no colo do meu pai, recusando-me a ir à escola. Meu pai gentilmente me ensinou (aos 4 anos de idade!) sobre a importância de uma boa educação para progredir em um mundo competitivo. Relutantemente, concordei em tentar, e ao longo das semanas e meses eu me adaptei.”

Nancy conta que a família se mudou para Nova York no ano seguinte e as gêmeas cursaram a primeira e a segunda série juntas, até serem separadas novamente na terceira. “Aos 8 anos, nossas diferentes habilidades, interesses e amigos eram óbvios e a separação era a escolha certa; consequentemente, a transição de salas de aula compartilhadas para separadas ocorreu sem problemas. Mas aos 4 anos só fomos separadas porque nossa escola mantinha uma política de separação obrigatória (e injustificada) quando se tratava de filhos gêmeos”.

Conclusão: todo casal de gêmeos tem suas próprias necessidades especiais, que não devem ser determinadas pela política escolar. Para a psicóloga, salas de aula separadas podem ser aconselhadas para gêmeos com desempenho em diferentes níveis de habilidade, que estão copiando as tarefas uns dos outros, ou brigando muito quando estão juntos. Por outro lado, as salas de aula comuns podem ser melhores para os gêmeos que se dão bem e trabalham juntos em níveis comparáveis, enquanto se misturam bem com os colegas.

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