Não é história para boi dormir: todas as famílias com gêmeos, mais cedo ou mais tarde, vão colocar na pauta o assunto SONO.

Isso porque ao cuidar de dois bebês ou duas crianças maiores, sempre em alguma etapa da vida este tema irá precisar de atenção em dobro.

Seja por conta de alguma mudança na rotina ou pela fase de crescimento (ou mesmo quando você chega da maternidade e não faz a menor ideia de como conciliar o sono de dois ou mais bebês!), a hora de dormir e as muitas sonecas diárias acabam trazendo muitas dúvidas.

É por isso que hoje a Me Two aborda esse assunto tão importante e ainda por cima com o know-how de uma das nossas co-idealizadoras. Elisa Scheibe Marty, mãe do Martin e do Franco, de 5 anos, é consultora do sono materno-infantil formada pelo IMPI (International Maternity and Parenting Institute) e socorre famílias de um ou mais pequenos que estão precisando de apoio em casa.

No 1º Workshop Nacional de Gêmeos e Múltiplos realizado em Gramado no dia 6 de abril, uma das nossas rodas de conversas foi sobre o sono. Aqui, listamos as principais dúvidas que os pais e mães trouxeram sobre o tema e compartilhamos com vocês os nossos conhecimentos e aprendizados.

“O que podemos adiantar sobre o assunto e que vale para todas as situações é: quando se trata de sono, não se consegue modificar apenas uma ação e ter resultados imediatos”, explica Elisa. “O que vai dar resultado é modificar ou ajustar uma série de pequenas coisas e encontrar uma rotina onde o sono faça parte, assim como as sonecas”.

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PERGUNTAS & RESPOSTAS

Preciso sempre colocar os dois a dormir ao mesmo tempo?

Precisar não precisa, mas vamos combinar que sincronizar o sono dos gêmeos permite que os pais ou cuidadores tenham uma “folga” enquanto os bebês dormem. E essa folga não quer dizer só tempo para fazer outras necessidades essenciais da rotina de um adulto, mas eu diria que é importante para descansar também. A privação de sono pode desencadear diversas consequências, então é importante que a família entenda a importância do sono e possa aproveitar esses momentos para dar um cochilo (especialmente a mãe nos primeiros meses de vida dos bebês, quando as demandas são intensas).

Eles precisam dormir em berços e caminhas separadas ou pode ser juntos?

O ideal é que no processo de organização da família para a chegada dos gêmeos se pense num lugar para cada um: seja no quarto dos pais ou em seu próprio quartinho, que cada um tenha seu berço (mesmo que no início, quando muito novinhos, possam ser colocados para dormir juntos). À medida em que vão crescendo, é importante separá-los, tanto para evitar mais momentos de despertar durante a noite como por medida de segurança. Na prática, o que acontece é que os gêmeos têm uma ligação incrível e colocá-los juntos, até certa idade, pode fazer com que durmam melhor. Minha sugestão, seguindo as recomendações de segurança, é que cada um tenha sua cama para dormir à noite. Durante o dia, quando há mais movimento na casa e quando os adultos estiverem acordados, até podem fazer uma das sonecas juntinhos. Mas para incentivar essa ligação que já é linda, vale colocá-los pertinho também para tomar sol ou até nos momentos de estimulação e brincadeiras.

É viável ou indicado fazer cama compartilhada com os bebês para facilitar as mamadas?

O que eu sempre oriento na consultoria é que o sono da família deve ser priorizado. Se isso quer dizer os pais aumentarem a cama e colocarem os bebês para dormir junto (seja porque estão exaustos, porque não têm ajuda à noite ou para facilitar as mamadas), esta deve ser uma decisão da família, e tudo bem se assim decidirem. Contudo, não acho razoável a família dormir “empoleirada”, mudarem o seu local de dormir ou um dos pais ser “expulso” do quarto por conta disso. Dentro de uma razoabilidade, eu diria que nos primeiros meses de vida dos gêmeos a família toda está se adaptando e “fazemos o que podemos”. No entanto, quando a família entende que a criança está aceitando uma rotina, pode pensar em alternativas e técnicas que, desde o início, possam ensinar a criança a não mamar de madrugada e ter mais independência na hora de dormir (desde que liberados pelo pediatra e que não precisem mais se alimentar à noite).

O que fazer quando um acorda o outro no meio da noite?

Se o choro for intenso, minha orientação é tirar quem está dormindo do quarto, ou seja, tentar acalmar quem acordou dentro do ambiente de sono e retirar quem não acordou. Contudo, se for um “chorico” mais leve, minha dica é fazer o chiado (shhhhhhh) e usar sempre a mesma forma de consolar, sempre com as mesmas palavras e atitudes. Dessa forma, vão passar a entender que o turno da noite é para dormir e que mesmo quando ouvirem o choro do irmão (inevitável em algum momento, no caso de gêmeos), vão conseguir se colocar para dormir novamente.

Existe um jeito certo de ensinar os gêmeos a pegarem no sono sozinhos?

Existe, sim! É acostumando os irmãos, desde sempre, terem mais independência na hora de dormir. E mais independência não significa deixar no berço chorando até dormir ou deixar de dar carinhos e beijos de boa noite, mas sim ter um ritual para o sono que os induza àquele momento, e horários consistentes para essa rotina noturna. Também é importante não desenvolver associações negativas para o sono, como depender sempre do mamá, do colo, do carrinho etc.

Quanto tempo uma criança deve dormir por dia, conforme a faixa etária, nos primeiros anos?

Bebês bem novinhos têm muita necessidade de fazer pequenas pausas durante o dia, pois até trocar a fralda, fazer um pequeno passeio ou tomar banho podem ser atividades “cansativas”. Conforme vão crescendo, essa necessidade muda. O mais importante, além de saber a quantidade de sono por faixa etária (tabela abaixo), é os pais se darem conta de que as fases mudam, as crianças crescem e a necessidade de sono também se modifica. Então, é preciso estar atento aos “períodos de transição”, quando num determinado dia a criança pode precisar de duas sonecas, e, em outro, fica bem com uma só.

sono gêmeos tabela dormir 2

A partir de que idade os gêmeos começam a dormir a noite inteira?

Em tese, os gêmeos costumam dormir a noite inteira na mesma época que qualquer criança. Contudo, existem algumas particularidades: o significativo índice de prematuridade em gestação gemelar é uma delas. A criança que precisa ficar na UTI geralmente tem a memória desse período e muitas delas costumam acordar tal qual eram acordadas na UTI, ou seja, acabam reproduzindo esse padrão em casa, o que pode atrasar esse momento tão esperado do bebê dormir a noite toda. Outra situação é quando um dos irmãos já dorme melhor e outra acorda mais vezes ou de forma mais intensa, e o barulho acaba por agitar o outro. Nossa tendência é achar que os gêmeos não dormem bem, mas, na verdade, um até já dormiria se não fosse acordado pelo outro (o que acontece com algumas duplinhas). E nunca é demais lembrar que cada criança é única, e que um pode adquirir a habilidade de dormir super bem antes do outro.

Depoimento de uma mãe de gêmeas que dormiam mal

Fernanda Linhares, mãe da Beatriz e da Heloísa, 1 ano e 4 meses

“Quando minhas filhas estavam com 10 meses, eu estava extremamente cansada, ou melhor, exausta das noites maldormidas. Foi então que conheci a Elisa e, após muita conversa e troca de informações, foi elaborado o plano de sono a ser executado. Desde o primeiro encontro recebi dicas valiosas da Elisa, tais como deixar mais de um bico no berço, a iluminação a ser utilizada e a forma de falar durante esses atendimentos à noite. Estas pequenas mudanças já fizeram grandes diferenças. Foi fundamental meu marido colaborar e participar do processo desde o início, essencial para o sucesso do plano. Ambos os pais devem estar dispostos a colocá-lo em prática.

Quanto ao sono tumultuado das gurias, priorizamos algumas medidas, sendo a primeira delas o desmame. Sempre acreditei na rotina e durante o primeiro ano, respeitamos os horários escolhidos com rigidez. Após o banho, era mamadeira e cama. Só que logo após a meia-noite já choravam querendo mais leitinho, e por volta das 6h da manhã novamente. Isso sem contar as diversas vezes em que choravam e eu tinha que ir até o quartinho delas atendê-las.

Optamos pelo desmame gentil, técnica apresentada pela consultora e adequada para nós, pois apesar do meu cansaço não tínhamos urgência. Sempre houve respeito com relação às necessidades da nossa família. Inserimos então, a “mamada dos sonhos”. Quanto à mamadeira da madrugada, diminuímos a quantidade de leite gradativamente, estabelecendo um horário mínimo para a próxima mamada. Inicialmente, reclamavam um pouquinho quando terminava, mas logo pegavam no sono novamente. Outras vezes, dormiam direto sem se darem conta. Apesar dos episódios de choro que aconteceram algumas vezes, fomos bastante firmes na nossa decisão.

Durante esse processo, elas simplesmente deixaram de acordar na madrugada, o que foi tranquilo para nós, sem grandes crises de choro. Após essa parte do plano dar certo, iniciamos a retirada da “mamada dos sonhos”, que aconteceu da mesma forma, gradativamente. Hoje, para nossa satisfação, dormem às 20h30min e a próxima mamada é somente a partir das 5h da manhã, quando voltam a dormir novamente. Na sequência, aplicamos as técnicas do Plano de Sono, pois aquela função toda de fazer dormir após a rotina do banho e ao final de um dia intenso também era bastante exaustiva. Não houve dificuldade de colocá-lo em prática. As meninas, por uma questão de confiança e amadurecimento, passaram a dormir sozinhas logo no primeiro dia. Na soneca do dia, ocorre o mesmo. Às vezes demoram um pouquinho mais, fico controlando na babá eletrônica alguma “conversa” entre elas, mas muito mais por satisfação ou emoção de ser mãe de gêmeas do que por necessidade de ir até o quarto. Acredito muito na Consultoria do Sono como um todo, pois toda a troca de informações e conversas que tive com a Elisa foram essenciais para chegarmos ao atual momento e para essa melhora significativa do sono das meninas, que era minha maior preocupação.”

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