Um telefonema da assistente social informou Janaína Figueiredo da Silva, 43 anos, que havia chegado a hora de ser mãe. Na fila da adoção há anos, ela e o marido receberam a notícia em dose dupla: gêmeos com menos de 5 meses de idade estavam prontos para serem adotados por uma nova família.

Desde que sofreu um grave acidente de carro que a deixou sem caminhar e sem falar, a farmacêutica Marília Garces Correa da Silva adiava o sonho da maternidade. A recuperação lenta transcorrida até a total reabilitação já havia sido quase um milagre. E então este ano em fevereiro, após engravidar naturalmente, nasceram seus gêmeos univitelinos, sem nenhum outro caso de múltiplos na família dela e do marido.

Grávida de seis meses e meio, a advogada Júlia Boeira, 34 anos, passou por uma gravidez ectópica, endometriose e um problema nas trompas até chegar à bem-sucedida fertilização in vitro, que deu certo na primeira tentativa. Na semana passada, em seu chá de fraldas esperando Bento e Marina, ficou emocionada ao pensar que daqui a pouco também será mãe e carrega no peito as lembranças da sua própria mãe, falecida há 7 anos.

Três mulheres e seis bebês às vésperas de comemorarem o primeiro (de muitos!) DIA DAS MÃES. Esta é a homenagem da Me Two a todas as mamães em dose dupla.

João Vítor e Helena Vitória, 1 ano, filhos de Janaína e Gleison Samuel do Nascimento, idade 39 anos

“No ano passado, eles existiam, mas não estavam comigo”

Janaína Figueiredo da Silva, 43 anos, funcionária pública federal

“Sempre quis ter filhos. Não vieram de uma gravidez, acabaram vindo de outra forma. Em 2014 encaminhamos pedido ao Judiciário para começar o processo de adoção. Eu e meu marido estávamos abertos a receber uma criança de até 6 anos ou irmãos no limite desta idade. Vivi uma gestação longa, um processo de muita ansiedade ao longo destes anos de espera.
Até que em agosto de 2018 recebi uma ligação da assistente social. Ela começou a dizer que eram bebês e que eram gêmeos. Fiquei surpresa e não acreditei! Ela riu do meu nervosismo e me explicou que sim, era uma situação muito rara, quase improvável de acontecer, mas era verdade. Recebemos então o dossiê com as informações deles para tomar a decisão.
João Vitor nasceu com um malformação congênita da qual eu tinha completo desconhecimento. Amor a gente tinha de sobra, mas eu queria uma opinião médica sobre o histórico deles. E então tomamos a decisão mais especial de nossas vidas de sermos mãe e pai daqueles bebês. Dez dias depois, chegou a hora de nosso tão esperado encontro ao vivo. Foi um período cheio de fantasias. Como eles deveriam ser? Só os conhecia por uma única foto. Eu queria ver, cheirar, tocá-los. E assim que trocamos olhares, João Vítor abriu um sorrisão para nós. Confesso que nem percebi de imediato o problema dele (fenda labiopalatina, conhecida como lábio leporino), tamanha foi a emoção do momento. Minha menina da mesma forma, Helena Vitória. Um pouco mais reservada, do jeito dela. Passamos a ir todos os dias seguintes na casa-lar para vê-los até que se cumprissem os trâmites legais para concluir o processo. Ficávamos só uma hora ou meia hora por conta das regras. Era sofrido ficar tão pouco tempo! Então numa quinta-feira me disseram de surpresa: você poderá levá-los amanhã. Foi uma alegria e um susto: eu estava concluindo outra faculdade (Direito) e minha formatura era no dia seguinte! Sem falar que chovia torrencialmente toda aquela semana em Porto Alegre e não havíamos conseguido ainda organizar tudo para recebê-los tão rapidamente. Poderíamos buscar no sábado, então? Não, não podia ser no fim de semana por conta das regras. Somente na segunda-feira. E assim foi. Me formei abaixo de temporal na sexta. No sábado, saímos para comprar o enxoval, dois berços, dois colchões, roupeiro. Nós mesmos levamos tudo sozinhos para casa, pois não esperaríamos frete na semana seguinte. Foi uma loucura! No domingo, fomos visitá-los também e depois começou a operação monta cama, monta roupeiro, monta tudo, até alta madrugada. E depois daquela noite, a gente nunca mais dormiu direito mesmo (risos). Estavam com quase 5 meses. Hoje em dia tudo é em função deles!
É um processo intenso ser mãe de gêmeos, tanto no sentido do amor duplicado quanto dos desafios. Pensei que por sua questão médica, João Vitor precisaria de uma série de cuidados. E até agora quem teve mais necessidade de internação médica foi a Vitória, revelou-se a mais frágil da dupla neste sentido. Sem falar que parece nossa filha biológica, pois também temos muita sensibilidade à mudança de temperatura, as famosas “ite”. Inclusive, todos nos acham muito parecidos fisicamente.
Ser mãe de dois é aprender a respeitar o tempo de cada um: João engatinha, Helena não. Helena fala muito, João não. Ter gêmeos é criar os irmãos juntos e tentar sempre atender as duas individualidades. Neste meu primeiro Dia das Mães, vou celebrar a chegada de meus filhos. No Dia das Mães do ano passado, eles já existiam, mas não estavam comigo. Era para ser assim. Tenho muito a comemorar agora!”

“Eles são um milagre que não consigo explicar”

Marília Garcez Correa da Silva, farmacêutica, faz 37 anos neste fim de semana

“Nasci em 12 de maio e muitas vezes dividi a data com a minha própria mãe. Agora neste próximo domingo vou dividir com ela e com as crianças também. Na verdade não é divisão, é uma multiplicação! Penso que todo mundo está comemorando meu aniversário nas suas casas. Acho que eu tenho mesmo uma visão diferente das coisas. Isso se reflete também na minha história até eu chegar à maternidade.
Acompanhei minha irmã sendo mãe muito cedo, aos 18 anos, quando eu tinha 13. Então sempre desejei adiar um o desejo de ter filhos. A vida cuidou de adiar um pouco mais ainda esse desejo: em 2007, sofri um grave acidente de carro e fiquei epilética pós-traumática. Foi uma recuperação lenta até voltar a falar e a caminhar. Precisava tomar fortes medicamentos desde então e pensei que talvez nunca pudesse ter filhos. Meus médicos diziam que só quando 3 exames em sequência dessem inalterados é que eu poderia parar com os remédios.
Meu marido e eu estamos juntos há 3 anos. Por eu ser 10 anos mais velha, desde que nos conhecemos ele sabia que eu não esperaria muito até engravidar caso fosse liberada. E então em dezembro de 2017 meu terceiro exame veio sem alterações. Começamos logo em janeiro a tentar engravidar! No mês das mães, fiz um teste e deu negativo. No dia 12 de junho, Dia dos Namorados do ano passado, fiz novamente e confirmamos o positivo. Foram 10 anos esperando este momento desde o acidente! Quando fiz o exame de sangue, corri para a internet para ver o que significava aquela alta contagem do beta HCG. Sabia o tempo exato da gestação, então aquilo na minha cabeça só poderia significar… gêmeos! Preferia pensar nisso do que ficar pensando bobagem ou algo ruim. Até para meus pais quando dei a notícia falei: e se forem gêmeos?
Falei esta mesma frase no dia da primeira ecografia. O médico lá olhando um saco gestacional, tudo muito bem e, opa, tem mesmo um segundo aqui! O Pedro ao meu lado sem conseguir acreditar na notícia! É claro que eu também fiquei assustada, mas me segurei porque ele já estava surpreso e eu preferi pensar que ia dar tudo sempre certo. Passei a fazer pré-Natal a cada 15 dias, mas os bebês depois de um período estavam ganhando pouco peso. Fiz suplementação de ferro e vitaminas e depois das 24 semanas comecei a fazer repouso, trabalhando remoto de casa, sem dirigir, e depois seguindo a orientação do obstetra: repouso total e come tudo o que puder.
No período das festas de fim de ano, meu tampão começou a descolar e ao longo da noite começaram as contrações, por 3h seguidas, de 8 em 8 minutos. Meu médico estava viajando, liguei e fui para o hospital por orientação dele. Fiquei internada e com medicação para segurar mais tempo, fiquei nervosa. Então ele conversou comigo: Lila, a natureza nos disse que era para essas crianças nascerem hoje, e nós interrompemos. Vamos ouvi-la? E assim foi: chegamos a 33 semanas e 4 dias e meus bebês João Pedro e Martín nasceram de cesariana no dia 30 de dezembro, com 1.400 kg um, 1.600 o outro. Ficamos na UTI por 25 e 30 dias, respectivamente. No dia em que voltamos para casa com o João, eu tive uma convulsão generalizada. Estava, afinal, há 1 ano sem medicamentos. Então fui internada novamente.

Marília e o marido, Pedro Vicente Medeiros, com João e Martin, nascidos em 30 de dezembro de 2018

Bom, e se estou aqui contando essa história é porque depois de tudo isso que passamos, deu tudo certo! Estão com 4 meses de idade, cheios de saúde, e ainda custo a acreditar que é verdade. Me pego olhando para os dois e pensando: como é que tudo isso aconteceu? Eles são um milagre que nem sei explicar. Fui escolhida 1 em 1 milhão de novo, pois ter sobrevivido do acidente também foi impressionante. E gêmeos? Não tinha de onde terem vindo por nenhum lado da família. Neste primeiro Dia das Mães, estou muito grata pelas coisas estarem correndo tão bem nas nossas vidas. Vou comemorar meu aniversário, vou comemorar a minha mãe, que me ajuda muito neste desafio gemelar, e vou celebrar um desejo meu antigo de ser mãe, que ficou guardado por muito tempo.”

Bebês de Julia, Bento e Marina devem nascer em 16 de agosto

“O dia da ecografia foi o mais feliz da minha vida até agora”

Júlia de Moraes Boeira, advogada, 34 anos

“Engravidei por fertilização in vitro. Meu marido e eu decidimos fazer o tratamento no ano passado porque em 2015 tive uma gravidez ectópica. Fiz exames e uma cirurgia videolaparoscopia para descobrir o que tinha desencadeado tudo aquilo. Então foi detectado que eu tinha endometriose e um problema nas trompas também. Nessa hora surgem muitas dúvidas e ansiedades no casal, principalmente na mulher. Mas como era um desejo muito grande nosso, a gente decidiu recorrer à reprodução assistida.
O mais curioso é que desde que nos mudamos para nosso apartamento falávamos no plural sobre o quartinho da bagunça ser transformado no quarto dos filhos. Nunca se falou no singular, no quarto do bebê. Em certo ponto do tratamento da FIV, a médica perguntou se gostaríamos de transferir 1 ou 2 embriões (até 35 anos, podem ser 2). Optamos por dois, mas com uma insegurança total sobre o resultado, pois no tratamento é possível nenhum embrião vingar, ou então só 1 ou então, quem sabe, os 2. E nós tivemos a sorte de ambos darem certo! Nossos dois ‘bundudinhos’, como a gente chama, resolveram vir ao mundo para nossa alegria. O dia da primeira ecografia foi muito especial, o mais feliz da minha vida até agora!
Até agora, estou vivendo uma gestação muito tranquila, com 106cm de barriga e a cada semana notando mais diferença no tamanho. Bento e Marina já estão de cabeça para baixo e espero parto normal, mas o que tiver que ser, será! O quartinho já está sendo preparado com muito amor. Fui liberada para yoga e exercícios, mas em função do cansaço estou mais devagar. Resolvi antecipar o chá de fraldas por isso e também porque a gente nunca sabe até quando a gestação gemelar pode ir. No último sábado, fizemos a comemoração especial com amigas e familiares dando boas-vindas para a minha dupla e também dia do meu aniversário! E agora chegando perto do meu primeiro Dia das Mães neste fim de semana, estou sentindo muito que minha mãe não está mais comigo. Ela faleceu faz 7 anos e isso ainda mexe muito comigo, me influencia bastante. No meu chá, tive um momento muito especial conectado a isso: na festa, apareceu para mim uma borboleta linda. Sempre ligo o surgimento de uma borboleta à presença dela, então teve um significado especial para mim senti-la comigo assim! Chorei muito por isso tudo, durante o chá inteiro, como dá para notar nas fotos 🙂“.

Júlia e o marido, Deiverson Fraga Marques, no chá de fraldas do último sábado

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