Pediatra é o médico que cuida de crianças, certo? Sim, mas também não (só) delas.

Um atendimento empático e menos automatizado, com um olhar acolhedor para toda a família de gêmeos e múltiplos (e não apenas os bebês), é um dos pedidos aos profissionais da saúde.

A pediatra e neonatologista dra. Rosa Moll debateu sobre as situações mais comuns na Medicina em se tratando do universo de gêmeos e múltiplos. É, sim, tudo muito diferente de quem tem um só filho! A palestra da médica no 1º Workshop Nacional de Gêmeos e Múltiplos Me Two, em Gramado, no dia 6 de abril, pontuou algumas questões que merecem atenção por parte de quem atende uma gravidez gemelar.

Aqui na Me Two, já publicamos um vídeo da dra. Rosa Moll com tudo o que você precisa saber antes de ir para a consulta pré-natal com o futuro pediatra dos gêmeos. Este é o ponto número 1 que precisa ser divulgado: a escolha do profissional de saúde deve ser feita pela família, e não por terceiros.

— O pai e a mãe não podem chegar na sala de parto com uma pessoa que nunca viram antes na vida. Peçam indicação ao obstetra ou a pessoas de sua confiança e conheçam o pediatra antes — indica dra Rosa.

Nascida a dupla ou o trio ou o quarteto, é hora de manter boas práticas nas consultas, que serão frequentes no primeiro ano. Para a médica, o essencial é não sair da consulta cheia de dúvidas: a pediatria precisa ir além de acompanhar o calendário de vacinação ou pesar e medir os múltiplos.

— Quando uma mãe faz uma queixa, é preciso prestar atenção. Consulta de gêmeos não tem a finalidade só de anotar peso e altura de cada um. Isso é muito fácil. Precisa entrar um primeiro, depois o outro sozinho e por fim olhar os dois juntos, ver como eles ficam. Cada ser humano é único, por mais semelhantes que eles sejam — explica.

Dra Rosa Moll, pediatra, no Workshop Me Two

O estado anímico da mulher irá impactar em todo o resto

É estatístico: 42% das gestações gemelares terminam antes do tempo. Assim, não é raro que durante boa parte da gestação a mãe tenha feito repouso, por exemplo, tentando proteger seus filhos ainda no útero. Ou que tenha se afastado do trabalho por conta disso. Ou que depois passe por um período (breve ou longo) de UTI neonatal. Dra. Rosa avalia: quando os bebês apesar de todos estes cuidados da mãe nascem prematuros, é inevitável causar uma sensação de frustração e inabilidade.

— O que uma mãe sente quando volta para casa e vê um berço vazio, quando os bebês seguiram no hospital? É muito difícil. O pediatra tem que entender o que essa mãe está passando, saber  que a vivência de UTI faz parte do tratamento. Dar o tempo suficiente para cada família durante o seu atendimento. E tentar ajudar a alivar a culpa que aquela mãe está sentindo naquele momento, sentindo-se incompetente — aconselhou a pediatra durante o Workshop.

Nestes momentos em que os bebês estão em tratamento na UTI neonatal, a única coisa que vai trazer segurança para os gêmeos é a voz da mãe e do pai. Pesquisas já comprovam que o apego da mãe contribui para diminuir a mortalidade dos prematuros nessa situação. Valorizar o fato de estarem presentes é um dos pontos primordiais para estes momentos tão delicados.

Entender a mãe de gêmeos faz parte do papel do pediatra e do tratamento de saúde, que precisa ser multidisciplinar — afirma.

Hora de indicar que aceite ajuda e peça ajuda

Na volta para casa com os bebês, chega o momento de acionar a estrutura para fazer a vida andar de forma minimamente organizada. Dra Rosa destaca que uma rede de apoio não é formada por aquela pessoa que apenas diz “se precisar de ajuda, me liga”: é alguém que realmente está lá!

— Quando uma avó de gêmeos me pergunta o que pode fazer para ajudar, eu respondo: pode ajudar da cozinha para a área de serviço. Faz uma comidinha especial e dá colo para a mãe dos gêmeos, não para os bebês. Ajuda com aquela montanha de roupas, faz uma comida congelada. E é preciso aprender a pedir esse tipo de ajuda também, mas eu como pediatra já gosto de orientar as famílias assim, para facilitar justamente a vida da própria mãe dos bebês — explica.

Foto: Bruna Schoch (@brunaschochfotografia)

Por que o papel do pai é fundamental?

Com 16 semanas de vida, dentro do útero, os bebês já escutam a voz da mãe por tudo, “englobando” eles mesmos, pois a voz reverbera e parece vir de dentro também. Já a voz do pai vem de fora, e o bebê precisa prestar atenção: fica atento e se mexe quando escuta, por isso é tão importante que o pai participe da gestação conversando, inclusive nomeando estes bebês. “Aqui está o João e aqui o Pedro”…. Não importa quem vai nascer primeiro!

Além de falar com os bebês desde a barriga, dra Rosa sempre aconselha já nas consultas pré-natal que o pai pode ficar com uma tarefa fixa sua: a do banho nos gêmeos.

O banho é aquele momento de toque, segurança, ligação. Acho importante que seja o homem a fazer esta parte: sua mão é mais pesada, o toque é diferente, o bebê vai conhecer outra noção de mundo além da mãe — explica.

Ao final da palestra, dra Rosa ainda opinou sobre a satisfação interna do pai de gêmeos e múltiplos: por participarem mais da vida familiar, eles têm mais momentos de contentamento com seus bebês.

— Pela minha experiência, acredito que o pai de gêmeos é mais feliz. Ele acompanha mais a rotina, participam mais.
Obrigatoriamente eles têm que se meter na pauleira (risos), então vivenciam mais a paternidade. E também observo que os filhos acabam sendo mais companheiros dos pais — concluiu.

É, famílias… Esta dica final não tem contra-indicação!

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