Já pensou ter fama de antipático porque as pessoas (desconhecidas) lhe cumprimentam pensando que você é o seu gêmeo? Ou então decidir mudar sua futura carreira inspirado na boa experiência do seu irmão?

Que tal, ainda, praticar um esporte junto e perceber que em dupla você é muito melhor do que sozinho? Estas são experiências que só quem tem uma “alma gêmea” desde o útero pode conhecer.

E todas essas situações descritas acima fazem parte da história dos “irmãos Borin“, como se referem a eles. Daniel e Rafael, 43 anos, são advogados em Porto Alegre e acumulam muitas vivências únicas relacionadas ao fato de serem univitelinos. Até algum tempo atrás, ambos trocavam impressões sobre o assunto apenas entre eles ou com a família e amigos próximos. Mas foi a palestra da psicanalista Adela Gueller na Escola de Pais do Instituto Ling, com curadoria da Me Two, que motivou um novo olhar sobre o tema da gemelaridade.

– Quando eu participei daquele encontro, foi como uma sessão de terapia de 10 anos (risos) – conta Rafael. – Faço terapia há um bom tempo e percebo que muitas vezes em consultórios é estimulada uma separação, para que cada um tenha sua individualidade preservada. Agora, vejo que se destaca mais a força da dupla, e isso é muito bacana.

Rafael conta também que, a partir disso, passou a perceber melhor quais são as grandes angústias do pais de gêmeos. E daí surgiu a ideia da participação dos irmãos Borin no 1º Workshop Nacional de Gêmeos e Múltiplos, no próximo dia 6 de abril, em Gramado (adquira já seu ingresso!). Ambos vão participar de uma das falas do workshop (Two Talk: Como é ter um irmão gêmeos, às 11h20min) e também de uma roda de conversa à tarde. Lá, vão abordar alguns dos temas que a gente antecipa por aqui, em um papo muito interessante para quem tem um irmão gêmeo ou crianças gêmeas na família.

Com vocês, os irmãos Borin e seus aprendizados. Spoiler para os pais: Daniel revela que conduziria tudo da mesma forma que seus pais caso também tivesse filhos gêmeos!

– Os pais estando presente na educação dos filhos é o que faz a diferença – opina Daniel, que tem três filhos: Pedro, 16 anos, Laura (4) e Eduardo (2). E Rafael é pai de Bernardo, 6 anos, e Catarina, 3.

A força da dupla e a formação da individualidade: como lidar na prática?

Todo pai e mãe de filhos gêmeos costuma ter esse dilema em maior ou menor grau: como fazer para tratar as crianças de formar diferentes e incentivar para que tenham suas personalidades distintas? É indicado desde o início cuidar para que tenham seus próprios gostos, vontades e escolhas?

Na opinião de Rafael, o que os irmãos perceberam ao longo da vida é que as escolhas são quase sempre muito parecidas. E dá um exemplo que talvez a esposa dele não goste (risos). “Sabe quando a mulher compra roupas para seu marido? Pois eu adoraria se meu irmão comprasse para mim! Não só porque temos o mesmo biotipo, mas sim a questão de estilo. Ele acerta tudo que eu gosto, cores, marca… É apenas um exemplo de como a dupla se entrosa muito bem. Existe uma sintonia fina em relação a percepções, gostos e até por comida”.

Daniel concorda e diz que inclusive as respostas para as perguntas que fazem a ambos costumam ser parecidas. Quando Rafael resumiu para o irmão a palestra de Adela sobre “a força da dupla”, tudo também fez sentido. “Essa expressão é fantástica porque se encaixa muito bem na nossa fase atual de vida. Somos uma dupla no tênis, jogamos há uns 4 anos pelo Juvenil e ganhamos alguns campeonatos. E temos uma forma única de complementaridade em quadra, pois eu sou canhoto e ele é destro”, conta Daniel.

“Comecei a ver momentos em que a dupla realmente funcionava muito melhor do que separado. Que várias vivências que tivemos por sermos gêmeos contribuía e nos ajudava muito mais do prejudicava. Foi um novo horizonte ao pensar nesta questão de ter um irmão univitelino”, comenta Rafael.

O tabu de falar sobre a competição (inata) entre os irmãos gêmeos

“Os gêmeos competem desde o útero: por alimento, por espaço, por leite depois que nasce e depois por atenção dos pais”, reflete Rafael, que trouxe a palavra “tabu” para falar sobre competição. Para ele, a comparação é inevitável e muitos pais podem ter comportamentos distintos para tratar o assunto.

Na família dos Borin, por exemplo, a mãe é pedagoga e sempre estudou muito sobre educação infantil (além dos gêmeos, há também dois filhos mais velhos). Rafael e Daniel contam que nunca se sentiram comparados – nem para mais e nem para menos. Rafael comenta que, quando um dos irmãos tem dificuldade em algum aspecto, acredita que os pais poderiam, sim, elogiar o irmão que está mais avançado e exigir mais do outro. “Não nivelar pelo que está com dificuldade, sempre incentivar e, claro, com respeito a cada um, sem criar tabus em relação a isso.”

E lá vamos a mais um exemplo: Rafa diz que Dani sempre demorava mais para se vestir quando eram pequenos. E por isso ele ganhava mais tempo. “E aí eu que era mais agilizado não tinha essa chance”, brinca. Para os irmãos, é normal que outras pessoas também comentem sobre essa competitividade. Quando um gosta de jogar bola e o outro nem liga para futebol, quando um é mais alto do que o outro ou mesmo quem passou na universidade federal enquanto o outro cursa faculdade particular.

Daniel comenta: “Isso nunca me atrapalhou! Nós dois somos advogados, e o Rafa sempre foi mais estudioso do que eu, eu ia bem e ele ia muito bem. Meu irmão é uma referência pra mim na advocacia, tenho muito orgulho de todas as conquistas dele. Busco muita informação com ele e ele me ajuda muito.”

Aliás, ambos estão na mesma carreira porque Daniel passou primeiro no vestibular. Rafael estava tentando entrar no curso de Medicina. Ao ver o irmão feliz no Direito, trocou sua decisão. E nenhum deles até hoje se arrepende da escolha! No Direito, atuam em áreas distintas, mas nem tanto. Rafael é tributarista e trabalho para empresas, em geral, enquanto Daniel advoga para bancos na parte de recuperação de créditos.

Facilitadores e dificultadores da vida de gêmeos univitelinos

“Já tive muito problema na vida ao ser taxado de antipático”, brinca Rafael. Isso acontece porque volta e meia aparece alguém que confunde um irmão com o outro. Depois de muitas vezes em que isso aconteceu, eles criaram uma combinação: uma pessoa olhou? Sorri de volta. Cumprimentou? Cumprimenta de volta! Hoje em dia, eles levantam as mãos para o céu pela existência do Facebook, que ajuda muito a explicar para (quase) todos que há um outro ser quase idêntico na mesma cidade (e na mesma profissão).

“Pode gerar um certo desconforto se encararmos isso como um dificultador, mas olhando pelo lado positivo a gente duplica nossos relacionamentos depois que tomamos essa decisão“, explica Rafael, falando sobre aumentar o networking. Aliás, em seu ponto de vista, muitas coisas sobre a gemelaridade que poderiam ser “negativas” podem ser transformadas em positivas. “Em vez de pensar ‘que saco que essa pessoa me confundiu de novo’, é só pensar que não temos dificuldade em sermos simpáticos e explicar a situação. Com o tempo, fomos usando como uma força”.

Durante 6 anos, aliás, essas “confusões” cessaram. Foi quando Daniel morou em Florianópolis e cada um viveu uma experiência de “únicos”. Em Porto Alegre, o irmão que ficou acabou frequentando uma roda de amigos que era só sua. E o irmão que se mudou para SC não tinha o gêmeo junto para ser confundido.

Daniel comenta: “Me diziam: ‘Lá tu vai ser o Dani, sem ser ‘o Dani irmão do Rafa’. Mas para mim isso era tão natural já. E o mais curioso é que era do meu irmão que eu mais sentia falta, mais do que dos meus pais. Rafa é meu confidente, posso falar com ele sobre tudo. Somos duas pessoas distintas, mas não tem como negar que pensamos de forma muito parecida.”

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