Somos três amigas, Elisa, Thaís e Vanessa, e temos o mais importante de nossas vidas em comum: somos mães de gêmeos. Mas, antes de sermos mães e criarmos a Me Two para ajudar outras famílias com gêmeos e múltiplos, somos MULHERES e temos muitas histórias para contar.

Hoje, neste DIA DA MULHER, 8 de março, queremos compartilhar com vocês nossa trajetória e convidá-las a contar as suas também! Vamos adorar te ouvir!

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Elisa, Vanessa e Thais

Thais Reali Beiler, 41 anos, especialista em comportamento de consumo e Design Thinking, mãe do Nicholas e do Thomas, 4 anos

“Aceitei que a gravidez viria pela ciência e isso não me fazia menos mulher”

Dizem que quando nasce um bebê, também nasce uma mãe. Não concordo muito com isso: acho que cada pessoa tem o seu jeito e irá se tornar mãe ao seu tempo. Afirmo isso observando nós três da Me Two: cada uma tem seu jeito e sua história, suas características próprias, seu maternar. Eu, Elisa e Vanessa somos bem diferentes e é isso que queremos contar aqui hoje no Dia da Mulher. Desejo em nome de nós 3 que cada mãe de gêmeos possa escolher como deseja que sua maternidade seja, independentemente da opinião da família ou de outras mulheres. Que seja de um jeito genuíno, e não estereotipado.
E por falar no tempo de cada uma e nos estereótipos, também eu passei por alguns aprendizados ao longo do caminho, na trajetória de mulher empreendedora que adiou a maternidade para realizar sonhos profissionais. Sempre amei o meu trabalho e sempre amei viajar! São duas coisas que me fazem muito feliz. Quando atingi alguns marcos que me propus e meu outro negócio (a Reali Hub for Innovation) estava andando sozinho, eu me permiti realmente engravidar. E aí, sim, chegou o aprendizado sobre o tempo. Meu processo foi demorado, pois querer não é sempre conseguir! Todas as metas de trabalho e viagens que sempre alcancei com certa facilidade se tornaram pequenas com a dificuldade que tive de engravidar.

Precisei me reinventar: olhar para a Thais e suas fraquezas e aprender a confiar que o tempo certo não é o tempo de chronos, e sim de Kairos. Eu acreditava que seria mãe e deveria confiar que a hora da maternidade também chegaria. Acabei tendo que aceitar que a gravidez viria apenas pelo método da ciência e que isso não me fazia menos mulher, algo que era dolorido de encarar até então. E então veio a linda notícia da gravidez do Nicholas e do Thomas, há quatro anos. Chegamos em casa com a ecografia, com a foto daqueles dois corações, pareciam dois anéis de brilhante. Carreguei aquilo na minha carteira por muito tempo!
No entanto, confesso que mesmo sempre querendo e brincando que seria mãe de gêmeos, minha primeira reação ao confirmar que eram dois bebês foi um misto de felicidade com muito, muito medo! Meu primeiro medo era de não conseguir levar a gestação até o final, pois sou magrinha, pequenina. E o outro era de não dar conta de tudo.
Eu achava que já tinha aprendido tudo o que deveria ao tentar engravidar, mal sabia eu que ainda tinha (e sempre terei!) muito a aprender. O incentivo constante do médico dr. Gustavo Steibel, da minha nutricionista Neiva Furlatto me faziam acreditar que iria até as 38 semanas de gestação. Sofri com muitos enjoos até o quarto mês, depois curti e voei as tranças dentro do que podia no segundo trimestre.
Levei minha duplinha na barriga para passear, para dar aulas, para workshops. Os clientes foram super carinhosos, atenciosos, até se deslocavam ao meu encontro quando já não podia mais viajar dirigindo de carro. A Vanessa Rocha, hoje minha sócia na Me Two, foi meu braço direito e esquerdo, acolhendo e dando as dicas certas em cada momento da gravidez e até hoje. Com ela, dividi o gosto de tocar e cantar as músicas da Isadora Canto para a barriga e dizia: “quero que vocês sejam cada um do seu jeitinho!”

E assim fomos até quase 36 semanas. Nasceram sem necessidade de UTI, o que me deixou muito alegre, principalmente porque passei pela temida pré-eclâmpsia. E por coincidência, eles nasceram no dia do nosso aniversário de casamento, o que foi um baita presente! Não consegui ter o parto normal que sonhava, mas adaptei a sala do hospital com tudo o que podia, em especial as músicas (as mesmas que tocava quando fazia as injeções do tratamento para engravidar).
O que me deixou muito tranquila foi o acompanhamento da pediatra, dra Rosa Moll, que nos dava dicas preciosas, como por exemplo o jeito que o pai dos gêmeos deveria recebê-los no parto e a segurança que ele daria até os bebês voltarem para o meu peito. Fiquei bastante tempo na maternidade e, por causa da minha condição de saúde, me sentia frágil. Na chegada em casa, bateu um medo muito grande no fim do dia. Entendi que precisava aceitar todo o tipo de ajuda porque realmente estava debilitada. Outra coisa que me tranquilizou foi quando a Vanessa me indicou uma babá que havia cuidado dos filhos dela e que tinha muita experiência com gêmeos.
Quando terminaram os primeiro quatro meses, eu não me sentia nada segura ou à vontade para retornar ao trabalho. Morava numa cidade diferente da minha empresa, acabei me mudando para ficar perto do meu marido, em função dos filhos. Fui voltando aos poucos, mas também tive que acelerar quando voltei, pois estávamos em plena crise de 2015. Meu jeito de trabalhar mudou depois disso: quis tornar minha empresa mais leve, pois estava muito pesada naquele momento, pelo menos para mim. E desde então, na Reali Hub for Innovation, sigo trabalhando no que mais acredito, através de parcerias estratégicas, com pessoas que sempre admirei. Quebrei muitos paradigmas desde então. E nesse tempo todo, graças aos meus lindos amores gêmeos, eu acabei também me reinventando e criando mais um caminho profissional, por ser uma mulher múltipla. A Me Two nasceu da minha intensa vontade de conectar pessoas, necessidades e propósitos. Ao juntar um grupo de mães de gêmeos, que eram amigas minhas, começamos aos poucos a criar estes encontros que me deixavam melhor, que me faziam voltar recarregada para casa, e com muitas dicas, acolhimento, serviços… E uma hora tudo ficou tão grande que a gente quis levar para o Brasil inteiro. E com a Vanessa e a Elisa, que são parceiras maravilhosas e somam muito, cada uma do seu jeitinho.

Depois da chegada dos guris, meus dias nunca foram mais os mesmos. Aprendi e sigo aprendendo que preciso respeitar os meus limites e os deles. Que preciso organizar melhor a minha agenda, que tudo o que eu dominava no âmbito profissional era pequeno perto da imensidão que é aprender diariamente em dose dupla. O melhor de tudo é ver que quando o tempo passa as coisas vão entrando em seu lugar, tanto no trabalho quanto na vida pessoal.
É preciso saber aceitar que não vamos ter tanto tempo disponível quanto gostaríamos, seja para os filhos, para o marido, como mulher ou como profissional. É muito saboroso, sim, mas há momentos em que realmente dá vontade de sair correndo! Ou então ficamos achando que não vamos dar conta. Mas, no fim, a gente acaba dando conta, com um jeitinho aqui ou ali. Ser mãe de gêmeos é inexplicável, é uma fabulosa aventura. A gente aprende a voltar a ser criança, ter presença para conseguir identificar a necessidade de cada um e ver quando eles estão só rebatendo ou espelhando algo que é nosso, nossa necessidade. É demais de bom!
Neste Dia da Mulher, meu recado final é que vocês nunca percam a energia do feminino. Temos essa percepção aguçada e temos esse lado da emoção a ser valorizado. Especialmente para uma mãe de gêmeos, é preciso olhar para si mesma e ter autocompaixão. É poder se recarregar com esta energia, para ter as anteninhas da percepção à disposição da dupla. Quanto mais a gente conseguir estar conectada com a energia do feminino, mais teremos a capacidade de ajudar individualmente nossos filhos e a nós mesmas.

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Vanessa Rocha, 36 anos, formada em Farmácia, mãe do Gabriel e da Isabela, 6 anos

“Somos mulheres maravilhas, sim, mas dentro da imperfeição”

Desde pequena, muitas vezes eu preferia cuidar dos bebês do condomínio onde morava a brincar com crianças da minha idade. A maternidade sempre foi um sonho! Quando fiquei grávida, antes dos 30 anos, como desejava, a emoção foi algo indescritível. E depois, quando descobri que seriam dois bebês, certamente foi o momento mais emocionante da minha vida! Até hoje, quando penso que algo não está fácil ou nos primeiros tempos, quando estava ansiosa, sempre lembrava de uma frase que é um dos nossos lemas atuais da Me Two: “se fui escolhida, é porque sou capaz”.
Sou uma mulher de espírito aventureiro, aquela que gosta de unir a família e de tomar conta de tudo e todos por onde passo. Hoje em dia, mesmo com todas as responsabilidades, ainda me sinto a mesma moleca. Quando porventura a preocupação do dia a dia me atrapalha, lembro dessa leveza e molequice que são a minha essência.
Também está no meu DNA querer ajudar os outros. Na minha profissão como farmacêutica e também agora como gestora de conteúdo e relacionamento na Me Two, esse traço sempre apareceu. Fiz pós-graduação em Cosmetologia e desde a faculdade, na iniciação científica, junto com a professora doutoranda (mãe de gêmeos), criávamos soluções para os idosos (como um hidratante para pele de quem tem xerose senil). Mas eu precisava de algo mais, então me especializei em farmácia oncológica. Preparava os medicamentos e prestava assistência farmacêutica aos pacientes. Isso me fazia muito bem! Gosto do contato próximo com o paciente. Era gratificante!
No entanto, mesmo com toda a proteção exigida que utilizava diariamente no preparo dos medicamentos oncológico, sabia que eles eram tóxicos e que, por lei, eu não poderia estar ali quando engravidasse. Acredito até que isso tenha relação com a demora para tive para engravidar, além do ciclo menstrual desregulado. Em um mês eu ovulava (até mais de uma vez), em outro não. Assim que eu soube da gravidez, fui afastada do preparo de medicamentos e integrei a equipe que estava implementando um novo sistema tecnológico para o hospital em que trabalhava. Tecnologia e inovação sempre fizeram parte de mim também! Amei aqueles meses todos de aprendizado.
Aliás, a descoberta da gravidez merece um capítulo à parte. Mesmo não tendo histórico de gêmeos na minha família, somente na do meu marido, ele sempre dizia que teríamos gêmeos. Na descoberta da gestação, com o resultado do exame sanguíneo, o hormônio Beta HCG foi muito elevado, a médica logo achou meu útero mais aumentado do que o normal. Desconfiada da gestação gemelar, solicitou que fosse fazer uma ecografia.

Neste ultrassom, apareceu somente um bebê, e foi muito emocionante saber que eu estava gerando uma vida. Meu marido comentou que o segundo bebê ainda não havia “aparecido”, mas estava ali. Lembro-me de dizer que era para ele ficar feliz, pois teríamos um filho! Mas ele seguia convicto de que seriam dois… Até que, no segundo exame, a médica estava realizando a ecografia endovaginal e alterou a fisionomia do seu rosto, passando a realizar o exame na minha barriga e comentou: “Está aqui, bem que desconfiei, o segundo bebê. Vocês terão gêmeos”. Após essas palavras, nem acreditava que estava sendo “escolhida”. Ser mãe de gêmeos era algo realmente sensacional!
Lá da clínica mesmo, liguei para a minha mãe para contar a novidade. Ela não acreditou, pois como Bruno estava sempre brincando que teríamos gêmeos, achou que era uma zoação. Quando viu que eu estava falando a verdade, ficou sem reação e desligou o telefone, nervosa! Somente após alguns minutos ela retornou a ligação, quando caiu a ficha!
Durante a gravidez, começamos a nos preparar para o nascimento das duas crianças. Meu marido e eu fizemos as contas e vimos que não iria valer a pena eu trabalhar fora e contratar pessoas para cuidarem dos bebês. Decidimos segurar a barra somente com o salário dele em casa. Queria também poder viver intensamente meu sonho da maternidade – ainda mais em dose dupla! E assim foi por mais de três anos, complementando com alguns trabalhos esporádicos em clínicas de oncologia, cobrindo férias ou licenças de outros profissionais.
Meus maiores desafios na maternidade foram os primeiros meses, na tentativa de organizar a logística de tudo e a rotina da dupla e da casa. Eu tinha muito claro desde durante a gestação que esse era o segredo. E, sim, isso é fundamental com gêmeos! A fase mais complicada foram os 6 primeiros meses, o período do aleitamento. Mesmo eu sabendo tudo o que passaria, amamentar dois é bem difícil! Sempre tive meu marido como muito parceiro em todas as horas! A chamada “mamada dos sonhos” (conforme o livro da Encantadora de Bebês, que eu adoro e recomendo) depois do mês 1 sempre foi com ele, com fórmula na mamadeira. Foi o jeito que consegui para manter amamentando os dois no peito durante o dia.

 

Eu queria me sentir uma Mulher Maravilha, mas meu corpo avisou que não era nada disso. Tive apendicite quando eles completaram meio ano de vida e, com isso, parei de amamentar no peito. Somos mulheres maravilhas, sim, mas dentro da imperfeição! Acredito que a maternidade deva ser vivida com leveza. Sempre fui muito segura, independentemente de não saber se era o certo ou não. Com isso, eu passava sempre segurança para os meus filhos. Nunca foi um peso pra mim a maternidade, mas entendo que isso possa acontecer com muitas mulheres. A demanda é grande demais e tentamos ser perfeitas! Dizem que quando nasce uma mãe, nasce a culpa. Ou seja, na maternidade gemelar essa culpa é em dobro!
Também a respeito do assunto “culpa”, tive que reaprender a cuidar de mim sem me sentir culpada por nada. Sempre fui uma mulher muito ativa e fã de esportes, principalmente os coletivos. Ganhei muitos quilos na gestação e nos primeiros três anos priorizei totalmente as crianças. Eu realmente não queria (e não conseguiria por falta de tempo) me dedicar como queria naquele período. É claro que um pouco dessa ansiedade se refletia no estilo de vida, especialmente na minha alimentação.
Depois dos primeiros anos, quando percebi que estava tudo bem com cada um deles, Isabela e Gabriel superbem cuidados, comecei finalmente a ter um tempo pra mim. Voltei a fazer academia, perdi peso muito rápido e consegui recuperar meu preparo físico de antigamente. Então voltei para os coletivos, como futebol e vôlei, e isso me faz muito bem! Quando comecei a cuidar de mim e olhar para mim, sinto que muitas vezes fui “julgada”, mesmo que as pessoas não tivessem a intenção. Este recomeçar a cuidar de mim, da minha saúde e do meu corpo, abrindo mão de duas horas por dia com as crianças para isso, já gerou um olhar de julgamento de pessoas próximas. Mas o importante é estarmos bem com nossas escolhas.

Lembra que mencionei a vontade de ajudar os outros como motivador das minhas escolhas profissionais? É também o que acontece atualmente com a maternidade gemelar. Eu estava em grupos de Facebook e sempre era bom ver relatos confortantes de quem passava o mesmo que eu. Sempre que via algo em que poderia ajudar, escrevia e ajudava com a minha experiência de mãe de gêmeos. Nesse primeiro ano de Me Two, Elisa, Thaís e eu focamos muito em levar o melhor para as famílias com filhos gêmeos ou múltiplos, aproximar esse grupo de famílias e ajudar diariamente todas essas pessoas.
O que existe por trás disso e ninguém vê são as muitas noites trabalhando depois das crianças dormirem, por exemplo. Como fazê-los entender que estamos trabalhando e, até então, não estávamos sendo remuneradas para isso? Afinal, estamos abrindo mão de momentos com as crianças para levar informação para novas famílias com gêmeos. Mas essa é a ajuda que eu sempre quis. Não deixei de amar meus filhos e tampouco de ter meus momentos com eles.
Atualmente, é claro que há dias difíceis em que preciso conciliar o trabalho com o papel de mãe e esposa – e muitas vezes não tem nada fácil nisso! Mas o retorno que temos é muito gratificante. Estamos no caminho certo e a Me Two vai decolar cada vez mais. Com voos muitos mais altos e eu estarei lá! Sem abrir mão da família, dos filhos. Não é fácil ser mulher hoje em dia. Somos criticadas se trabalhamos fora, se trabalhamos em casa ou se fazemos os dois. Enfim, ser multi-mãe-mulher! E falar de mim como mulher não tem como não falar igualmente como mãe. A maternidade é meu maior legado. Sintam-se abraçadas por mim no nosso dia. Parabéns para nós!

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Elisa Scheibe-Marty, 40 anos, advogada e consultora do sono materno-infantil, mãe do Martin e do Franco, 5 anos

“Tudo bem não dar conta de tudo sempre”

Ser mãe sempre esteve em todos os meus planos. Formar uma família era um caminho natural para mim. Dizia aos quatro ventos que minha vida não mudaria muito depois que eu tivesse filhos, que eles é que me acompanhariam pra lá e pra cá. E que iria voltar a trabalhar normalmente, como antes, após os seis meses da licença-maternidade. Ah, doce ilusão! Agora eu sou uma mulher movida por essa vida familiar que eu adoro e que eu sempre quis ter.
Aliás, este seria o meu maior conselho para todas as mães de gêmeos e múltiplos: aceitar que as coisas podem fugir um pouco do nosso controle. E está tudo bem! Mesmo! É natural ter que se reinventar. Tudo bem não dar conta de tudo sempre, não estar sempre disposta e adaptar a rotina e a atenção que antes eram dedicadas a outros assuntos. Isso passa da melhor forma possível, com o tempo sendo nosso amigo e com os filhos nos ensinando todos os dias.
Antes da maternidade, eu estava sempre envolvida em alguma atividade. Ajudava a organizar eventos no trabalho, participava de comissões, campanhas, grupos… Isso me realizava e preenchia bastante. Não me contentava em fazer o meu trabalho e voltar para casa, estava sempre em movimento. Tinha muito tempo para ler, ir ao cinema, viajar sem programação e estava sempre “inventando moda”. Me formei em Direito, fiz mestrado e organizei minha vida para ter filhos depois disso tudo.

Os gêmeos vieram dois anos após meu casamento (e após 14 anos de namoro, não consecutivos). Meu marido e eu temos uma família muito unida e idealizávamos “reproduzir” o que meus pais e meus sogros tinham, aquele “familião” que se encontra com frequência e que quer estar junto. Foi em uma manhã de sábado que descobri que a minha vida mudaria para sempre. Aliás, toda vez que passo perto do laboratório onde fiz o exame lembro como me senti quando saí de lá, me achando uma mulher incrível e superpoderosa!
Já na ecografia me dei conta de que haviam duas “bolinhas” no vídeo. Fui do choro ao riso em segundos e o mais engraçado foi ter que explicar para meu marido o que estava acontecendo: vamos ter gêmeos! Guardei segredo por alguns dias para contar pessoalmente para meus pais que estavam viajando. Foi incrível! Minha mãe, que é gêmea, ficou bem maluca (no bom sentido, claro!), e meu pai, que tem irmãs gêmeas, ficou bem preocupado. No dia seguinte, me falou que não tinha conseguido dormir após receber a notícia. Além disso, me perguntou se havia sido pelos “métodos naturais”! Lembrar desta conversa me faz rir até hoje.
É claro que, a partir daquele dia, milhares de dúvidas passavam pela minha cabeça a toda hora. Recebi conselhos valiosos durante a gestação. Um deles era o de me preparar com todas as informações possíveis sobre gêmeos (que naquela época não se encontrava em muitos lugares).
Trabalhei até 18 dias antes do parto. Martin e Franco nasceram de cesariana, com 38 semanas, quando senti alguns sintomas que avisaram que estava chegando a hora. Tive uma tosse bem chata que começou uns dias antes do parto e que me fizeram ter cuidados especiais no pós-parto, mas mesmo assim 4 dias depois já estávamos em casa com toda a família. Sem dúvida foi um dos momentos mais emocionantes da vida!

Nos primeiros meses pós-parto, minha mãe e minha sogra foram incansáveis: por um bom tempo, elas se revezavam para ficar conosco, e também uma pessoa ficava com eles à noite, o que me muita dava serenidade (e sanidade!) para enfrentar o dia com meus “gatinhos” (apelido carinhoso por causa dos barulhinhos e miados que faziam). O dia a dia era intenso e puxado, mas eu me descobri uma mãe e uma mulher que aceita ajuda e que sabe delegar, o que considero fundamental quando se tem gêmeos. Também me transformei no sentido de me tornar mais organizada, programando cardápios, as idas à farmácia, ao supermercado, ao pediatra…
Meu marido e eu sempre fomos muito parceiros nas tarefas domésticas, e isso certamente facilitou a vida de todos. Aos poucos, fui adaptando as coisas para ficarem cada vez mais práticas. O carrinho duplo para dois bebês, por exemplo, era um item indispensável: me dava liberdade para sair sozinha com a dupla, permitindo que resolvesse tudo perto de casa com eles. Nessas saídas, lembro que várias vezes recebi abraços de mulheres desconhecidas, também mães de gêmeos, que se solidarizavam ao ver a cena.
Quando meus filhos estavam com 1 ano e alguns meses, naquela fase em que cada um anda pra um lado diferente, eu tinha recém deixado de trabalhar fora para me dedicar aos guris e estava muito tempo sempre só em casa, junto com eles e com a babá. Sentia falta de conversar com amigas, de encontrar pessoas. Quando me convidaram para o grupo do WhatsApp com mães de gêmeos (que chamávamos de “Confraria”), me senti muito bem: ajudava as outras mães com o que já havia passado e também passei a ajudar na organização de encontros presenciais, como nosso primeiro almoço e primeiro piquenique. Nossos cafezinhos despreocupados recarregavam as energias (ainda que falássemos muito nos filhos), e eu chegava em casa bem faceira, de volta para os cuidados com meus gurizinhos.

Pesquisando sobre o tema dos múltiplos, descobri o Painel USP de Gêmeos, em São Paulo, e fui viajar com a Thais (Reali) para lá. Ela e Vanessa já eram amigas, então a partir daquele meu envolvimento com o grupo também acabei fazendo parte, contatos estes que depois deram origem à Me Two. E a maternidade gemelar mexeu tanto comigo a ponto de eu encontrar outra profissão: quando os meninos tinham 2 anos e 4 meses, eles entraram na escola, mas passaram a ter dificuldades de dormir. Encontrei uma consultora do sono em Porto Alegre, mas ela estava indo morar no Exterior. Então descobri a formação em consultoria do sono materno-infantil e, além de resolver o meu problema pessoal, passei a ajudar outras mães.
Hoje em dia, Franco e Martin estão com 5 anos e meu grande desafio é lidar com ambos na mesma fase de desenvolvimento, ou seja, quando damos conta de um, o outro já está demandando também por este ou outro motivo. Também é preciso cuidar dos momentos a dois, enquanto casal: a mãe precisa entender que as crianças vão ficar com familiares ou cuidadores eventualmente, para que os pais possam ter o seu momento. Isso foi algo que fizemos desde sempre e fazemos até hoje, com a consciência de que contribui para que as crianças cresçam de forma saudável.
Neste Dia da Mulher, quero dizer a todas que não se prendam pelos julgamentos de outras pessoas. Só quem é mãe de gêmeos sabe o que é ser mãe de gêmeos! Há muita solidariedade e compreensão por quem também passa o dia a dia com duas (ou mais) crianças, mas principalmente o olhar mútuo de quem sabe que foi duplamente abençoada.

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