Muitas famílias com gêmeos já tiveram contato com o assunto: a tendência de atraso na fala das crianças.

E na carona dessa questão vêm os motivos pelos quais este atraso no desenvolvimento da linguagem poderiam ocorrer.

Conversamos com a fonoaudióloga Vanessa Henrich, especialista em Aquisição de Linguagem e mestre em Linguística Aplicada pela PUCRS, para trazer informações sobre o assunto e tirar as principais dúvidas a respeito do atraso na fala de gêmeos.

Quais os principais fatores que levam ao atraso na fala?

Vanessa responde: “Existem os fatores biológicos e fatores ambientais. Tanto para gêmeos quanto para outras crianças, a prematuridade, o baixo peso, a baixa estatura ao nascer e o baixo índice de Apgar são fatores de risco para intercorrências no desenvolvimento. No que diz respeito aos fatores ambientais investigados, um aspecto relevante é que eles demonstraram mais interferência do que os biológicos para a comunicação de gêmeos, especialmente porque envolve questões interacionais. A condição excepcional que os gêmeos vivenciam, partilhando intimamente as experiências com o irmão, os leva a padrões de situações diferenciadas, como o fato de não necessitar tanto da interação com outras pessoas, já que poderiam ser um par auto-suficiente. O padrão atípico pode ser tanto uma alteração observada também em crianças não gemelares (como atraso de linguagem, Transtorno Fonológico, dentre outros) ou estar relacionado a duas condições específicas: a de compreensão partilhada ou a “tão referida” linguagem secreta, a criptofasia. Há outras particularidades que também merecem ser observadas quando tratamos do desenvolvimento comunicativo de gêmeos, como por exemplo, períodos de estimulação eventualmente menores devido a outras necessidades que demandam, menos tempo de interação individual com a mãe e diálogos com demais adultos sempre em competição.

É possível um gêmeo estar em uma etapa do desenvolvimento e o irmão em outra?

O desenvolvimento é um processo gradativo e não linear, que embora siga marcos esperados para faixas etárias específicas, espera também por variações individuais. Portanto, embora a experiência gemelar seja muito relevante em todo este processo, cada criança deve ser observada individualmente e caso necessário, encaminhada para uma avaliação. É imprescindível que os pais de todas as crianças estejam atentos aos marcos do desenvolvimento cognitivo e de linguagem esperados para cada faixa etária de acordo com o Ministério da Saúde, no caso de gêmeos considerando a idade corrigida (idade corrigida ou idade pós-concepção discrimina o ajuste da idade cronológica em relação do grau de prematuridade da criança. Considerando que um bebê a termo nasce com 40 semanas de idade gestacional, deve-se descontar da idade cronológica do prematuro as semanas que faltaram para sua idade gestacional atingir 40 semanas).

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Em que faixa etária os pais notam que a fala está em desenvolvimento com atraso?

Vanessa comenta: “É frequente que os pais de gêmeos ouçam que gêmeos demoram mais a falar, que meninos demoram mais a falar, que cada criança tem um tempo de desenvolvimento. Tudo isso é fato. Mas os marcos do desenvolvimento estão aí justamente para que se esteja atento a proporcionar para as crianças que necessitam uma estimulação precoce. A estimulação precoce auxilia como terapia diagnóstica e em caso de maiores intercorrências, permite que a criança seja melhor observada e estimulada, atenuando ‘gaps’ no desenvolvimento. Além disso, quanto antes forem identificados os motivos do atraso, mais adequada técnica de intervenção a ser utilizada. Ou seja, não se pode esperar além da idade corrigida. Se a criança não alcançou o marco, ela precisa ser avaliada e estimulada se necessário.

Os padrões específicos de gemelares surgem por volta dos 24 meses e tendem a diminuir gradativamente ao longo dos 16 meses subsequentes. As alterações no desenvolvimento da fala e da linguagem podem causar sérios problemas no desenvolvimento cognitivo e socioemocional na idade escolar ou adolescência. Estudos demonstram que a detecção de tais alterações aos dois a três anos reduz em 30% a necessidade de acompanhamento terapêutico (fonoaudiologia, psicologia, educação especial, entre outros) aos oito anos de idade. Da mesma forma, reduz em 33% o número de crianças com problemas na linguagem escrita”.

O que é esperado como desenvolvimento da linguagem para cada idade?

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Zero a 12 meses
– Mostrar interesse pelas pessoas e objetos, fazer contato de olhos, emitir sons, chorar, agarrar objetos com a mão, reagir a sons e vozes familiares.

12 a 18 meses
– Responder a comandos verbais sem pistas visuais. Ex: dar tchau, jogar beijo, bater palmas quando alguém canta parabéns; Começar dizer as primeiras palavras com significado. Ex: mama, papa, dadá, teté; Olhar quando chamado pelo nome; Entender o “não”.

18 a 24 meses
– Utilizar duas palavras. Ex: dá neném! Dá dedera! É meu!
– Saber as partes do corpo e identificá-las. Ex: cadê o cabelo? Cadê a barriga? Cadê a boca?
– Responder “sim” e “não” e usar gestos com a cabeça ou dedinho para responder perguntas.
– Brincar com os objetos da forma convencional. Ex: utilizar colher para comer, pente no cabelo, copo para beber.

2 a 3 anos
– Saber o nome dos objetos do dia-a-dia. Ex: copo, boneca, cachorro (au-au), carro, bola, etc. (fala aproximadamente 200 a 300 palavras).
– Saber quem são as pessoas próximas. Ex: papai, mamãe, vovó, titia, o nome do irmão, etc.
– Saber a diferença entre grande e pequeno, muito e pouco.
– Utilizar “quem” e “onde” para fazer perguntas.
– Conhecer algumas cores básicas (mas ainda não sabe falar). Ex: pegue o carro vermelho!
– Usar verbos para formar frases simples. Ex: “eu estava brincando”, “papai está dormindo”, “eu fui à escolinha”, “cadê o au-au?”, “que au-au grande!”.
– Gostar de “ajudar” os adultos nas atividades domésticas, brincar de faz de conta, entender o que é permitido e proibido.

3 a 4 anos
– Responder a perguntas com “quem”, “onde” e “o que”.
– Ter noção de “frente” e “trás”.
– Conhecer as cores (vermelho, azul, amarelo, verde) e formas geométricas (círculo, quadrado, triângulo).
– Utilizar frases de 3 a 4 palavras. Ex: “mamãe é linda!” “cadê a minha bola?”
– Obedecer a ordens seguidas. Ex: “vai ao quarto e pega o sapato e dá para a vovó”.
– Gostar de cantar e brincar com palavras e sons.
– Brincar com outras crianças e saber esperar a sua vez no jogo.
– Perguntar muito.
– Início do uso de discurso direto e indireto.

4 a 5 anos
– Falar todos os sons da língua, mas ainda pode ter dificuldades nos encontros consonantais. Ex: planta, prato, braço.
– Manter uma conversa.
– Conseguir lembrar situações passadas e contar histórias simples, por exemplo, o que fez na escola, o que comeu, quem encontrou na rua, etc.
– Gostar de brincar em grupo, de imitar personagens e brincar de faz-de-conta.
– Ser curioso e ansioso para mostrar o que aprendeu e o que sabe fazer.
– Conseguir contar histórias como narrador.

5 a 6 anos
– Ter noção temporal. Ex: amanhã, ontem, hoje, antes, depois, dias da semana, manhã, tarde, noite, primeiro, segundo, terceiro…
– Identificar letras do próprio nome.
– Conhecer os números.
– Manter uma conversa.
– Falar as palavras corretamente.
– Gostar dos amigos e de brincar de faz de conta. Ex: super-herói.
– Interessar-se pela leitura e escrita.
– Contar histórias com mais detalhes

(Informações do artigo “Distúrbios da fala e da linguagem na infância”, de Letícia Pimenta Costa Spyer Prates e Vanessa de Oliveira Martins, publicado na Revista Médica de Minas Gerais, 2011)

Cuidado com o excesso de telas para crianças pequenas

Vários estudos confirmam que há prejuízos no desenvolvimento infantil em decorrência da exposição a telas. A Associação Americana de Pediatria recomenda que crianças menores de 2 anos não sejam expostas a nada: TV, celular, tablet… Vanessa destaca: “Nós aprendemos a nos comunicar uns com os outros, são as pessoas que falam, conversam, emanam calor, variações de afeto em sua voz, acolhem o bebê, portanto é a necessidade de comunicação e o modelo desta que incita o desenvolvimento da linguagem. Assim aprendemos a nomear as coisas do mundo, organizar nosso pensamento, experiências, construir ideias, aprender, expressar nossos desejos. A linguagem e a cognição apoiam-se na percepção como um todo, na fala do outro e no afeto. Os eletrônicos não proporcionam nada disso: apenas estímulo visual e auditivo, além de não estimularem atenção, memória, paciência, tempo de espera, dentre o domínio de outras habilidades fundamentais. Enquanto a criança está nos eletrônicos, está sendo privada de desenvolver habilidades sociais, motoras, de raciocínio e linguagem que só acontecem com estímulos do ambiente e na interação com outras pessoas.”

Como é a melhor forma de tratamento para atrasos na fala?

O acompanhamento depende do distúrbio, do grau de severidade, da disponibilidade da família em realizar atendimentos. Isto é determinado pelo fonoaudiólogo e pelo pediatra. Quanto mais tempo de estimulação, melhores os resultados. O ideal seria estimulação duas vezes na semana, porém sabemos que isso depende da disponibilidade da família.

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