De todas as fases da vida, o puerpério é o período em que a mulher tem maior vulnerabilidade para o aparecimento de transtornos psiquiátricos.

E uma das condições que podem ocorrer neste período é a depressão pós-parto, que requer tratamento.

Agora lá vem uma estatística para você, futura mãe de gêmeos, ficar mais alerta ou observar as novas mães ao seu redor. Um estudo de 2009 divulgado pela Pediatrics (da American Academy of Pediatrics) mostrou que mães de gêmeos e múltiplos tinham 43% a mais de riscos de desenvolver depressão pós-parto em comparação com mães de gestações únicas.

Agora, calma: você não está sozinha!

Conversamos sobre o assunto com a médica psiquiatra e psicoterapeuta Ana Cristina Tietzmann, especialista em Psiquiatria da Infância e Adolescência, que trabalha no serviço de Psiquiatria do Hospital Materno-Infantil Presidente Vargas (HMIPV) da Prefeitura Municipal de Porto Alegre. Ana explica que o puerpério é marcado por bruscas mudanças nos níveis dos hormônios e alterações biológicas, bem como esta transição para a maternidade é marcada por mudanças psicológicas e sociais, com momentos de maior fragilidade.

No caso de quem tem dois bebês, a psiquiatra e psicoterapeuta destaca que o suporte que essa mãe vai ter no cuidado com os bebês também irá impactar na saúde mental.

— É sabido que a privação de sono pode contribuir para desencadear a depressão pós-parto, bem como o fato de a mulher se sentir desamparada. Quando existe já a previsão de mais de uma criança para nascer, a organização deste suporte pós-parto é fundamental. E é preciso ficar atento nas primeiras semanas, que são bem importantes pois é quando ocorre a queda abrupta dos hormônios, e que vão fazer a diferença no diagnóstico — explica.

A médica salienta ainda que as mães de gêmeos já enfrentam um estresse maior desde a gravidez, pelo risco do parto prematuro. E esta é uma situação que causa angústia e pode ser desencadeante da depressão, principalmente para mulheres que já tenham alguma vulnerabilidade, como história de depressão prévia ou predisposição genética ou casos na família.

Temos que parar de tratar o tema como tabu. As mães não podem ter preconceito em buscar ajuda. A saúde mental é fundamental, assim como a saúde em geral. E a mãe precisa saber que estes primeiros anos de vida da criança são a base para um desenvolvimento como um todo, então ela precisa estar bem para poder cuidar de seus bebês — conclui a médica.

SAIBA MAIS

Transtornos psiquiátricos no pós-parto

Em artigo de revisão da literatura médica sobre o tema, os autores classificam o pós-parto como um período de alterações biológicas, psicológicas e sociais. É, como falamos no início, a época mais vulnerável para a ocorrência de transtornos psiquiátricos em mulheres. O que você precisa saber sobre o assunto:

# A disforia puerperal (conhecido como “baby blues”) ocorre em 50% a 85% das mulheres. Trata-se de um quadro leve de sintomas e, por ser transitório, não requer tratamento.

# A depressão pós-parto ocorre em torno de 13% das novas mães e pode prejudicar a interação mãe-bebê. Requer acompanhamento médico e tratamento.

# Já a chamada psicose pós-parto é rara (0,2% das mulheres no puerpério). Envolve sintomas psicóticos e afetivos, havendo risco de suicídio e infanticídio. Requer internação hospitalar.

# Outros tipos de transtornos podem ficar mais exaltados no pós- parto, como transtorno de ansiedade generalizada, o transtorno de estresse pós-traumático e o transtorno obsessivo-compulsivo.

Sintomas da depressão pós-parto

Ocorre no puerpério nos meses que se seguem ao nascimento do bebê (de dois meses, três meses a seis meses e até um ano). O quadro depressivo em geral começa a partir de duas semanas até três meses após o parto). Os sintomas podem incluir humor deprimido, perda de prazer e/ou interesse nas atividades que antes eram prazerosas, alteração de peso e/ou apetite, alteração de sono, agitação ou retardo psicomotor, sensação de fadiga, sentimento de inutilidade ou culpa, dificuldade para concentrar-se ou tomar decisões e até pensamentos de morte ou suicídio.

Conversamos com duas mães de gêmeos diagnosticadas com DPP. A seguir, leia seus relatos.

depressao pos parto imagem

“Não conseguia dormir, comer e falar”

DEPOIMENTO – B., 44 anos, mãe de gêmeos de 6 anos

Levei três anos para conseguir engravidar. Foi uma felicidade descobrir que eram gêmeos! Tudo esperado com amor. Só que a gente não se prepara para a vida de mãe. Nossa geração, a dos 30/40 anos, foi mais preparada para ter autonomia e depois pensar em filhos. Quando chega a hora, a gente acha que vai ser tudo lindo. Minha depressão começou quando eu não aceitei que os bebês nasceram prematuros com 35 semanas (eu tive pré-eclâmpsia). Um foi para o quarto comigo e outro para a UTI neonatal. Fiquei desde então me culpando. Pensava: “Não consegui segurá-lo dentro de mim até o tempo certo”. Este foi o primeiro choque. Depois veio a dificuldade da amamentação. Quando o médico me avisou que meu bebê na UTI havia pego uma infecção no sangue e ficaria mais alguns dias, aquele foi o segundo baque. A médica me deu alta em um dia de manhã, mas já era noite e eu não queria sair do hospital. Fui expulsa de lá. Não somos preparadas para lidar com estes imprevistos. Tudo corre bem até que algo inesperado ocorre e sofremos para administrar as mudanças. Depois disso, com um dos meus filhos vindo para casa e outro ficando, saí do hospital achando que iria morrer. Deixei um pedaço de mim lá. Como eu iria conseguir cuidar de uma criança em casa e outra no hospital? Foi muito difícil chegar em casa. Passaram-se algumas horas e percebi que eu não estava nada legal. Parecia que eu estava em um sonho ruim. Eu pensava: “Isto não é minha vida, isto não é a realidade, não estou vivendo isso”. Passaram-se uns dias, eu me dividindo para lá e para cá e no fim das contas não tinha mais leite. O choque de pensar que eu não iria conseguir alimentar meus filhos… Este medo de não conseguir cuidar foi outro baque. Eu estava sofrendo, negando que tudo isso fosse real. Para minha médica, na consulta, eu falei que estava me sentindo estranha. Ela me deu uma medicação e, depois disso, meu bebê teve alta. Fiquei mais confortável, mas ainda não aceitava tudo aquilo. Eu acreditava que meu filho tinha sofrido tudo aquilo por minha causa. Meu comportamento mudou. As pessoas falavam comigo, eu tinha vontade de responder, mas não conseguia dizer nada. E olha que sou muito comunicativa. Minha mãe me perguntava: “Tu gosta dos bebês?”. Se fosse hoje, eu responderia: “Tá louca, mãe, de me fazer essas perguntas? Eu só estou nervosa!!!”. Tudo o que eu conseguia era fazer um SIM com a cabeça. Mas minha voz não saía. Meus pensamentos não saíam da cabeça. Eu não deixava meus filhos dormirem direito, de tanto que eu olhava eles, tamanha a preocupação que eu tinha com o que podia acontecer de ruim com os bebês. Qualquer mexidinha à noite eu corria lá com lanterna ou colocava um espelho na boquinha para ver se estavam respirando. Eu não comia, eu não dormia, uma série de fatores passaram a agravar a situação. Minha mãe me levou de novo para a médica, que decretou: “Você está com depressão pós-parto”. E eu respondi: “Não, doutora, depressão pós-parto é não gostar dos filhos!” Ou seja, até nisso eu estava equivocada. Eu entrei em DPP por conta de tanta frustração e preocupação. Eu tinha tanta culpa por tudo o que aconteceu com aqueles dois serzinhos… Foi difícil reconhecer tudo isso, foi a pior fase da minha vida. Quando eles fizeram dois meses de vida é que eu comecei a viver a maternidade imensamente, sem encarar como um problema, voltando a dormir, comer e falar.

depressao post parto estresse

“Pensamentos trágicos invadiam minha mente a qualquer hora do dia”

DEPOIMENTO – L., 37 anos, mãe de gêmeas com dois anos de idade

Antes de engravidar, eu já havia tido um episódio de síndrome do pânico, que durou alguns meses. Depois disso passei a ter medo de não conseguir dar conta quando tivesse filhos. Com 34 anos, meu marido e eu começamos as tentativas para engravidar. E para nossa surpresa fiquei grávida assim que deixamos os métodos anticoncepcionais. Na primeira ecografia, com seis semanas de gestação, já vimos os dois corações batendo. Meu marido e eu ficamos em choque, apavorados. Depois, durante a gestação das gêmeas, eu me sentia uma “atração” para as outras pessoas. Era como se eu vivesse em um mundo encantado. Eu não tinha a menor noção do que me esperava. Tudo começou com o nascimento delas, prematuro, com 31 semanas. Meu marido estava viajando e, na nossa residência, estávamos em reforma, construindo um andar extra na casa para acomodar as crianças. Minha bolsa estourou e corri para o hospital às pressas. Minhas filhas nasceram de cesariana sem a presença do pai. Eu estava sozinha, apenas com Deus no meu lado, no peito e na raça. Elas foram para a UTI neonatal, eu não fazia ideia do que era aquilo. Na primeira noite, fui até a UTI para vê-las novamente (só tinha visto no nascimento) e já me deparei com aquela situação difícil, a incerteza se iriam sobreviver ou não, apesar das perspectivas serem ótimas. Neste primeiro dia já passei mal. E eu sabia que não era devido ao calor da sala, e sim por causa da dúvida que martelava na minha cabeça: “Levaremos elas para casa ou não?”. Desmaiei. E a partir dali, pensamentos trágicos invadiam minha mente a qualquer hora do dia. Comecei a imaginar o velório delas, e via elas dentro do caixão de crianças. Quando isso vinha involuntariamente na minha cabeça, eu procurava desviar os pensamentos e pensar em outras coisas. Ao mesmo tempo eu tinha certeza de que era a depressão vindo fazer morada. Decidi que na consulta com a médica no sétimo dia pós cesariana iria comentar com ela. Eu acreditava que não saberia cuidar delas e que jamais iria dar conta de dois bebês provindos de uma UTI. Pensava que quem sabia cuidar delas eram as enfermeiras, e não eu. Minha médica me receitou o antidepressivo e foi como usar o limpador de para-brisa… Tudo foi ficando visível aos meus olhos. A vontade de chorar não vinha mais, já não entrava em desespero. O remédio foi vida para mim! Tomei por oito meses, até que retornei ao trabalho. Até hoje não senti necessidade de retomar o remédio. Me sinto forte e capaz de “criar” minhas meninas, que são a coisa mais linda da vida. É um presente que recebi.

Teste de saúde e bem-estar:

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