Vamos falar sobre o casamento depois que os filhos gêmeos nascem?

O pai e a mãe dos bebês, antes conhecidos apenas como “marido e esposa”, precisam reconfigurar seu relacionamento em vários aspectos (afetivo, sexual, emocional e de ordem prática) para garantir a base necessária aos dias futuros.

Quem comenta o assunto pelo ponto de vista da psicanálise é o médico Ruggero Levy, membro efetivo e analista didata da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA). Ruggero palestrou nesta terça-feira (2 de outubro) sobre o tema “O casal e a nova família após a chegada de gêmeos e múltiplos”, encerrando o ciclo 2018 da Escola de Pais do Instituto Ling com curadoria da Me Two, tendo apoio da Escola Despertar e Censi Empreendimentos.

Quatro pais participantes do evento foram sorteados para ganhar vouchers do patrocinador desta palestra, nossa marca parceira Aramis Menswear, no valor de R$ 250 em roupas.

A seguir, comentamos os destaques da reflexão de Ruggero sobre os processos relacionados à chegada dos filhos à vida do casal, o funcionamento familiar, a conexão da mulher com os outros papéis de vida e a reorganização da vida a dois.

ruggero levy psicanalista
Ruggero Levy – foto: Divulgação/Instituto Ling

A ansiedade que chega em anexo à parentalidade

A parentalidade não é uma função dada ou nata: ela precisa ser construída através da experiência. Para isso, é preciso haver tolerância e paciência de ambas as partes, além de um trabalho psíquico para atingir este ponto. Quando se fala na “construção da parentalidade”, temos sentimentos ambivalente. Por mais que seja um momento único, em que os pais se sentem “deuses” por terem gerado dois ou mais novos seres no caso dos gêmeos, é também motivo de alta ansiedade, pois ter vidas em suas mãos traz enorme responsabilidade.

O que fazer, então? Ruggero reflete que o casal deverá conter as ansiedades presentes no ambiente familiar e tentar transformar esta pressão em aspectos positivos, de forma a criar um ambiente desintoxicado destas ansiedades. Os pais precisam entender que é seu papel proporcionar o afeto e a satisfação das necessidades básicas ao desenvolvimento saudável e semear este amor os novos membros da família.

O casal que não tiver solidez prévia irá sofrer quando tiver filhos

Sabemos que a vida de um casal sem filhos é bem diferente de um casal com filhos bebês ou outro com filhos maiores. Cada fase terá suas características. Nada permanece da mesma forma. Uma família considerada saudável é aquela que consegue se transformar ao longo deste ciclo. Já as famílias que não conseguem terminam por se dissolver.

– Muitos casais têm fragilidade emocional maior e um vínculo menos sólido, portanto sofrem mais e correm o risco de dissolução do núcleo familiar. O casal com filhos precisará ter seu tempo de consolidação do relacionamento e intimidade necessária, adquirida com a intensa vida conjugal prévia, para um aprofundamento do vínculo – destaca.

Assim, após essa consolidação, do mútuo amadurecimento e da renúncia das liberdades daquele primeiro momento da vida conjugal, quando eles não eram “pai e mãe”, surgirá esta nova organização familiar.

psicanalista escola de pais ling
Os mediadores da palestra, Eduardo Moura Rosa e Thaís Reali, da Me Two – Foto: Instituto Ling/divulgação

E não é apenas o marido e a mulher que viram “a nova família”

Se antes da chegada dos bebês era mais fácil contornar as demais relações que vêm “na carona” de um relacionamento, é importante destacar que a presença de outros membros familiares ficam mais intensas neste momento. A configuração é agora somada por pais, mães, sogro, sogra… E, sim, são todos necessários para dar suporte à nova família, no entanto podem gerar estresse além da conta. O casal perde a privacidade e a intimidade antes construídas entre eles, então é necessário muito diálogo para administrar esta situação que pode parecer invasiva muitas vezes.

– Devido ao maior desgaste emocional e ao cansaço, somado a presença de outros personagens na cena familiar, o casal deve atentar para não entrar em conflito – alerta Ruggero, destacando que este ponto é mesmo difícil de ser administrado.

Como ser mãe sem deixar de ser mulher

A sensibilidade aumentada de uma mulher que se torna mãe é o que a ajuda a se conectar com seu bebê para identificar as necessidades dos filhos. No entanto, este é um período muito crítico. Não bastasse o índice médio de depressões durante a gravidez e no pós parto ser elevado em mães de gêmeos (há 43% de chances a mais, segundo a revista Pediatrics da Associação Americana de Pediatria), ainda pode ocorrer um afastamento físico e emocional do marido.

Ruggero chama a atenção para como isso ocorre: o corpo da mãe esteve “a serviço” dos seus bebês durante os nove meses de gestação e depois durante o período de amamentação. Em média, pelo tempo de quase um ano e meio. Em algum momento destes ciclos, é importante que a mãe vá resgatando o seu chamado “corpo erótico”, deixando de ser apenas um corpo nutridor.

– Nos primeiros momentos, será difícil e mais devagar a mãe recuperar sua identidade (por estar intimamente ligada aos filhos). Mas à medida que os bebês se desenvolvem e passam a ter maior autonomia, a mulher inicia um processo de resgate de sua vida pessoal, de seu corpo e de sua relação conjugal – analisa o palestrante.

palestra escola de pais instituto ling

O papel do pai e da rede de apoio neste momento crucial

Ajudar e facilitar o desenvolvimento de bebês frutos de gestação múltipla é uma tarefa muito mais complexa do que com filhos de gravidez única. É uma exigência enorme para os pais intuir e atender necessidades diferenciadas de dois seres de personalidades diferenciadas, simultaneamente.

– O envolvimento paterno terá que ser muito mais intenso e o envolvimento da família ampliada, na forma de parentes ou de rede de apoio com amigos, terá que ser muito maior – conclui Ruggero.

LEIA TAMBÉM
O QUE SIGNIFICA SER PAI DE GÊMEOS?
O USO DO BOM SENSO PARA AJUDAR MÃES DE GÊMEOS